A estrada não ajuda.
Buracos, pressa, horário.
O corpo sente cada irregularidade do asfalto como se fosse pessoal.
O banco do carro não abraça — cobra.
E a cabeça já está na próxima tarefa, no próximo compromisso, no próximo minuto que não pode atrasar.
Tudo urge.
Tudo empurra.
Tudo cala.
Até que o céu me obrigou a parar.
Não foi delicado.
Nem sutil.
Foi um corte seco no ritmo.
Encostei.
Pisca-alerta ligado.
Carros passando rápido ao lado, como se nada tivesse acontecido.
Mas estava.
Tudo ao meu redor se movia, menos eu.
O céu parecia aceso por dentro.
Laranja queimado, dourado espalhado, nuvens desenhadas à mão, pintadas com aquarela, como se alguém tivesse decidido caprichar justamente naquele fim de tarde.
E eu ali, entre o barulho dos carros e um silêncio que não vinha de fora, mas de dentro — aquele que só aparece quando a gente finalmente cede.
A pressa ainda existia.
Os buracos ainda estavam lá.
A dor também. Ela nunca saiu.
Mas, por um instante, nada disso mandava em mim.
Eu não estava no controle.
E, pela primeira vez no dia, também não estava tentando.
Só presente.
Respirei.
E a pergunta veio, sem esforço, sem ensaio:
Como alguém pode não acreditar em Deus?
Não como argumento.
Como constatação.
Depois, voltei pra estrada.
Os buracos não sumiram.
O horário não mudou.
A vida continuou exigindo.
Mas alguma coisa em mim tinha desacelerado por dentro.
Talvez o problema nunca tenha sido a falta de beleza.
Talvez seja a pressa…
que não nos deixa parar.
Até que a vida
pare a gente.
Que lindoooo ❤️
Sem palavras... Vc é incrível, nos deixa atentas com textos que falam por nós!
Só gratidão por dividir esta arte que vc domina como ninguém, com todos nós!
Obrigada!
Observar o simples não é passivo — é intervenção neurobiológica: reduz ruminação, modula o eixo do estresse e restaura redes cerebrais essenciais para o equilíbrio mental.
Linda paisagem, acompanhada de um belo texto. 😍
Como me faz bem ler uma crônica tão verdadeira !
Parabéns filha !
Muita sensibilidade!
Lindo texto! Parabéns minha princesa! Te amo! Bjs