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07/05/2026 18:25 | Colunistas
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por Aline Borges

Nem Sempre Inteira. Intensa.

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Há dias em que meus dedos fecham portas, mas minha mente ainda deixa janelas abertas. Hoje, porém, até o pensamento manca um pouco. Os dedos doem, queimam, protestam contra tarefas simples como se segurar uma caneta fosse carregar o mundo nas articulações.

Há crueldades pequenas que quase ninguém percebe. Uma tampa que não abre. Um botão que desafia. Um zíper que zomba. Uma sacola leve demais para justificar tanto esforço e pesada demais para ser ignorada. Um livro quieto sobre a mesa.

Segurar um livro? Nem em pensamento.

E talvez doa mais o que isso simboliza do que a dor em si.

Porque certas perdas não pesam pelo objeto perdido, mas pelo que representam. Não é só o livro que fica intocado. É o ritual interrompido. O prazer adiado. A pausa negada. A versão de mim que se encontrava nas páginas e descansava entre capítulos.

Disseram certa vez que a gente é o que consegue ser. Achei pouco.

Há dias em que consigo quase nada que o mundo admire. Não produzo grandes feitos. Não resolvo pendências heroicas. Não organizo gavetas, metas ou a vida. Não performo aquela eficiência admirada por quem nunca precisou negociar com o próprio corpo antes do café da manhã.

Mas por dentro sigo excessiva.

Penso demais.

Sinto demais.

Lembro demais.

Resisto demais.

Nem sempre inteira. Intensa.

Aprendi que inteireza é estado passageiro. Há dias em que ninguém está inteiro, apenas alguns disfarçam melhor. Intensidade, porém, costuma sobreviver mesmo quando todo o resto vacila. Ela atravessa rachaduras, improvisa luz em casas sem energia, acende fósforos no vento.

Há gente inteira e vazia.

Há gente em pedaços e imensa.

Eu me reconheço mais nos cacos que ainda brilham do que nas estátuas sem rachadura. Desconfio da perfeição lisa demais. O que nunca quebrou talvez nunca tenha sido testado. O que nunca doeu talvez ainda não tenha aprendido profundidade.

Meu corpo às vezes fecha para balanço. Suspende movimentos. Cobra juros antigos. Impõe silêncio às mãos. Mas minha alma insiste em manter uma fresta acesa. Uma luz teimosa, dessas que continuam mesmo quando a casa inteira pede escuridão.

Não tenho talento para florear ferida.

Quando escrevo, ainda vem sangue.

A verdade comigo costuma chegar sem maquiagem, de cara lavada, às vezes inconveniente, muitas vezes cruel. Talvez por isso eu desconfie tanto das frases bonitas que cabem em canecas, camisetas e legendas ensaiadas. Elas quase nunca sabem o peso de uma mão latejando às três da tarde.

Hoje estou irritada.

E há dignidade nisso também.

Nem toda força sorri serena diante da tempestade. Nem toda coragem fala baixo. Às vezes a bravura rosna, reclama, bate portas e chora de raiva no banheiro. Às vezes sobreviver vem de sobrancelha franzida.

Se sou apenas o que consigo ser, hoje sou pouco.

Mas se também sou o que carrego por dentro, hoje ainda sou imensidão.

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💬 Comentários


Bia Siqueira em 07/05/2026 19:02

Que lindo!!! Sem palavras para descrever os sentimentos que correram aqui.