Em Campos dos Goytacazes existe um drama silencioso que pouca gente de fora entende. O município arrecada bilhões em royalties do petróleo há décadas, mas isso nunca se traduziu, de forma proporcional, em riqueza distribuída para a população. Pelo contrário: criou-se uma espécie de ilusão coletiva de prosperidade. No papel, a cidade parece rica. Na vida real, o campista comum sabe que não é.
Os royalties sempre funcionaram como um cobertor que escondia a fragilidade econômica do município. Enquanto entrava dinheiro em volume quase infinito, adiava-se o enfrentamento dos problemas estruturais: pobreza, baixa renda média, dependência do poder público, ausência de diversificação econômica e uma desigualdade social brutal. A renda per capita oficial muitas vezes transmitia uma imagem incompatível com a realidade das ruas, dos bairros periféricos, do comércio enfraquecido e das famílias vivendo no limite.
E talvez seja justamente aí que nasce o desespero de quem ocupa ou pretende ocupar um mandato parlamentar em município pobre sustentado artificialmente por royalties. Porque, no fundo, existe um medo permanente: o dia em que o dinheiro diminuir e a fantasia acabar. O parlamentar deixa de ser apenas legislador e passa a carregar a pressão de uma cidade inteira dependente de recursos externos, de empregos públicos, de contratos, de favores e de uma economia que não conseguiu caminhar com as próprias pernas.
O mais grave é que, mesmo após décadas de arrecadação extraordinária, nenhum prefeito teve coragem política de construir um verdadeiro fundo de reserva capaz de proteger o município das inevitáveis quedas de arrecadação. Preferiu-se governar olhando o presente imediato, muitas vezes sustentando estruturas caras, ampliando dependências e alimentando a sensação de abundância permanente. Faltou visão de longo prazo. Faltou responsabilidade histórica. Faltou admitir que royalties nunca foram eternos.
Hoje, a cidade vive aprisionada nessa contradição cruel: arrecada como município rico, mas convive com problemas típicos de cidades pobres. E quanto mais a arrecadação oscila, mais aparece a fragilidade escondida durante anos de fartura artificial.
Não há glamour em representar um município que aprendeu a sobreviver anestesiado pela renda petrolífera. Existe cobrança para tudo, mas quase nunca há estrutura sólida para resolver o essencial. O político vive entre a expectativa impossível e a realidade fiscal escondida atrás dos números bilionários dos royalties. Porque riqueza institucional não significa riqueza popular.
Campos foi tratada durante muito tempo como uma cidade rica apenas porque recebia muito dinheiro. Mas dinheiro entrando nos cofres públicos nunca significou, automaticamente, prosperidade social. E talvez essa seja a maior tragédia campista: os royalties mascararam por décadas uma verdade desconfortável a de que a população, em sua maioria, continuou pobre.
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