Carregando cotações e clima...
29/05/2026 13:05 | Colunistas
Avatar de Aline Borges
por Aline Borges

Exausta, porém existindo

Imagem da notícia

Tem dias em que viver não parece uma grande conquista.

Parece só manutenção.

Trocar a dobradiça da porta que range mais que meus dentes à noite?

Não.

Apenas colocar um pouco de óleo pro barulho diminuir.

E seguir abrindo e fechando a mesma porta.

Dormir mal porque a coluna grita de dor.

Levantar mesmo assim.

Lembrar de não esquecer o café esfriando enquanto respondo às mensagens que lotam meu celular.

Dedos doendo, inchados, sem força pra cortar o pão.

Levar filhos na escola.

Dirigir mesmo sentindo uma espada de samurai atravessando minhas costas.

Colocar comida e água pros jabutis.

Resolver problemas.

Pagar terapias, jardineiro, dedetização.

Boletos… eles sempre vencem.

Tomar banho achando que o dia terminou.

Doce ilusão.

Ainda tem umas duas ou três viagens da mãetorista pra fazer.

Trazer filho pra terapia e escrever enquanto aguarda.

Mesmo com os dedos latejando de dor, prestes a explodir tal qual uma panela de pressão cheia de feijão no fogo alto.

Fingir que organizou a mente e a vida porque conseguiu organizar a mesa.

Existir, às vezes, é apenas isso:

um corpo cansado atravessando horas.

Desejando que essas horas encontrem o relógio e desliguem o despertador.

As pessoas romantizam muito a força.

Mas quase nunca falam da exaustão de precisar “pareSer” forte o tempo inteiro.

“Uau, você é muito guerreira!”

Não, meu bem.

Guerreira é a Xena.

Eu sou mãe de três, neurodivergente e PcD.

Uma pessoa comum com capa de heroína dos quadrinhos. Só isso.

Sou de carne, osso, músculos e neurônios danificados.

Não tenho superpoderes.

Existe um tipo de cansaço que o sono não toca.

Não descansa.

Cansa.

Ele mora mais fundo.

Nas decisões acumuladas.

Nas dores que não cessam.

Na hipervigilância de quem nunca consegue relaxar completamente.

Na mente que continua funcionando mesmo quando o corpo implora por silêncio.

Aquele motor de Ferrari na carcaça de um Fusca 74.

Eu tenho sentido isso.

Eu tenho sido isso.

Uma espécie de esgotamento silencioso.

Invisível.

Doloroso.

Não daqueles dramáticos que fazem alguém desabar no meio da sala.

Pior.

Daquele que continua pagando boletos, respondendo educadamente, trabalhando, dirigindo, sorrindo para os vizinhos… enquanto desmonta em partes pequenas e invisíveis.

Talvez a fase adulta seja justamente descobrir que nem sempre estaremos bem.

E que o botão de “pular” do controle remoto da vida está quebrado.

Não dá pra avançar as fases difíceis e ir direto pra linha de chegada.

E ainda assim precisaremos continuar existindo.

Não em estado de glória.

Mas de permanência.

Tem dias em que sobreviver não vem acompanhado de superação.

Vem acompanhado apenas de persistência.

Persistir também é coragem.

Porque existir exausta exige uma força que ninguém vê.

É continuar mesmo sem aplauso.

Sem palco.

Sem plateia.

Sem adrenalina.

Sem recompensa imediata.

Sem ter certeza de quando o corpo, a mente ou a alma vão finalmente descansar.

Hoje eu não tenho uma grande lição.

Nenhuma frase perfeita.

Nenhum fechamento cinematográfico.

Só a honestidade de admitir:

estou cansada.

E digo em tom de protesto.

Não de reclamação.

Mas ainda estou aqui.

Exausta, porém existindo.

← Voltar

💬 Comentários


Silvia Pessanha em 29/05/2026 18:32

Suas palavras descrevem a muitas de nós. Parabéns por saber se expressar tão bem !!❤️🌹❤️

Aline Borges em 29/05/2026 14:49

Pessoas queridas,

Vocês tem noção da importância do comentário do Márcio? Não, não tem porque não sabem quem ele é. Mas eu conto pra vocês.

Ele é “apenas” o EDITOOOOOOOORRRRRR DO MEU LIVRO! E ele falou para eu continuar. E eu vou. O mundo que lute.

Entenderam agora? 💁🏻‍♀️

Márcio Schalinski em 29/05/2026 14:17

Que bom que ainda está aqui (espero que por muito tempo!)

Gosto muito dos teus textos, muito espirituosos. Traz leveza mesmo em dias difícieis.

"Não, meu bem.
Guerreira é a Xena."
hahahaha ótima!

Abraço, Aline!
Continue!