Outro dia eu disse uma frase sem pensar muito:
— Eu nasci para fazer história e não só para contar.
Depois fiquei ruminando aquilo por dias.
Afinal, sou escritora. Contar histórias é, literalmente, uma das coisas que mais faço — e amo — na vida.
Conto histórias em crônicas, em cartas, em legendas. Conto histórias sobre pessoas que amo, sobre lugares por onde passei, sobre dores que atravessaram meu caminho e sobre alegrias que chegaram sem avisar.
Mas talvez a frase não estivesse falando sobre escrita.
Talvez estivesse falando sobre presença.
Existe uma diferença enorme entre assistir à vida e vivê-la.
Há dias em que nos acomodamos na arquibancada da própria existência, muitas vezes sem perceber. Observamos os outros realizando sonhos, iniciando projetos, aprendendo coisas novas, enfrentando desafios. Aplaudimos, admiramos, comentamos.
Enquanto isso, postergamos.
Adiamos porque estamos cansados. Exaustos da vida que pedimos para ter.
Porque ainda não nos sentimos prontos.
Porque o momento ideal não chegou.
Porque temos medo de errar.
Porque a coragem, quase sempre, chega depois do primeiro passo e não antes dele.
A verdade é que ninguém faz história vivendo apenas no rascunho.
Os capítulos que mais nos transformam raramente começam quando tudo está organizado.
Eles começam no meio da bagunça.
No meio das contas.
Das dores.
Das dúvidas.
Das limitações.
No meio da vida real.
Penso nisso quando olho para trás.
As histórias mais importantes que tenho para contar hoje não nasceram dos dias perfeitos. Nasceram justamente dos dias que eu jamais teria escolhido viver.
Dos dias que eu teria riscado do calendário.
Nasceram dos remendos.
Das perdas.
Dos recomeços.
Dos papéis rasgados emendados com fita.
Das vezes em que precisei reconstruir partes de mim sem sequer saber por onde começar.
Curiosamente, foram esses capítulos que escreveram a mulher que agora os narra.
Talvez seja esse o grande segredo.
A gente imagina que primeiro precisa viver algo extraordinário para depois ter uma boa história.
Mas a vida não funciona assim.
A história está sendo escrita enquanto lavamos a louça com a água gelada cortando os dedos, enfrentamos exames, ajudamos um filho, enterramos um sonho, começamos outro, choramos escondido ou damos risada de algo aparentemente sem importância.
A história acontece nos bastidores.
Nos dias comuns.
Nos dias difíceis.
Nos dias que parecem não render uma única linha digna de ser contada.
E é justamente por isso que merecem ser vividos com tanta atenção.
Porque ninguém sabe qual página simples de hoje será o capítulo inesquecível de amanhã.
Aquela página que ninguém arranca do caderno.
Continuo sendo a escritora apaixonada por histórias.
Mas acho que finalmente entendi aquela frase.
Nem toda história merece ser contada.
Algumas merecem apenas ser vividas.
E talvez, no fim, eu não me importe tanto com os capítulos que escrevi.
Talvez eu me importe mais com aqueles que tive coragem de não deixar em branco.
Impossível falar qualquer coisa depois de ler sua crônica, como sempre, perfeita! Aline, quantas lições nos passa, que força é essa tão poderosa que nos abre questionamentos e ao mesmo tempo, nos dá respostas...
Ansiosa para ter seu livro, aguardado por tantos!
Sou uma desses tantos!
Obrigada, minha querida e admirada amiga!⚘️
Impossível falar qualquer coisa depois de ler sua crônica, como sempre, perfeita! Aline, quantas lições nós passa
Lindo, perfeito… amei!!! Ótima reflexão!👏🏻👏🏻👏🏻