Hoje é Dia dos Namorados.
Mas esta crônica não é sobre hoje.
É sobre amanhã.
Porque hoje haverá flores.
Mensagens carinhosas.
Fotografias.
Jantares.
Declarações.
Hoje o amor estará por toda parte.
Ou, pelo menos, parecerá estar.
As vitrines estão enfeitadas. Os restaurantes estão cheios. As redes sociais se transformaram em uma grande galeria de casais sorridentes. E eu não vejo problema algum nisso.
Gosto das flores.
Gosto dos bilhetes.
Gosto das pequenas celebrações que nos lembram de dizer em voz alta aquilo que, muitas vezes, deixamos escondido na correria dos dias.
Mas é amanhã que a coisa fica interessante.
Quando os buquês começarem a murchar.
Quando os restaurantes voltarem à rotina.
Quando as fotos terminarem de receber curtidas.
Quando o calendário seguir adiante como se nada tivesse acontecido.
O que sobra do amor quando a festa acaba?
Talvez essa seja a pergunta que realmente importa.
Porque o amor costuma aparecer muito bem nas fotografias, mas é nos bastidores que ele revela quem é de verdade.
Ninguém publica a foto da paciência.
Ninguém faz um vídeo emocionante sobre quem acordou mais cedo para preparar o café.
Ninguém registra o companheiro que espera do lado de fora de uma consulta.
A esposa que conhece os remédios de cor.
O marido que aprendeu a identificar um olhar de dor antes mesmo que a outra pessoa diga uma palavra.
O casal que atravessa um mês difícil sem desistir um do outro.
A mãe e o pai que se revezam em noites sem dormir.
As mãos que seguram outras mãos quando a vida resolve ficar pesada demais.
Quase ninguém fotografa essas coisas.
Talvez porque o amor cotidiano não seja muito fotogênico.
Ele não vem embrulhado em papel de presente.
Não usa roupas de festa.
Não faz discursos.
Mas é justamente aí que mora sua grandeza.
É fácil amar quando tudo está bem.
Quando há saúde.
Quando há dinheiro.
Quando os planos estão dando certo.
Quando a vida corre exatamente como imaginamos.
Difícil é continuar escolhendo o amor quando os ventos mudam de direção.
Quando surgem as preocupações.
As contas.
Os medos.
As perdas.
As limitações.
As cicatrizes que ninguém planejou carregar.
Talvez por isso eu ache que o amor verdadeiro não seja um sentimento.
Ou, pelo menos, não apenas um sentimento.
Sentimentos vêm e vão.
Mudam de intensidade.
Oscilam como as marés.
O amor que atravessa o tempo parece mais uma decisão silenciosa repetida diariamente.
Uma escolha.
Escolher ficar.
Escolher cuidar.
Escolher ouvir.
Escolher permanecer.
Escolher construir mesmo quando seria mais fácil abandonar a obra pela metade.
Por isso, gosto do Dia dos Namorados.
Mas confesso que tenho uma admiração especial pelo dia 13.
E pelo dia 14.
E por todas as terças-feiras comuns espalhadas pelo calendário.
Porque são nesses dias que descobrimos se o amor era apenas uma comemoração ou se era, de fato, uma presença.
As flores vão murchar.
Os chocolates vão acabar.
As fotografias serão substituídas por outras fotografias.
Mas, se houver sorte, permanecerá aquilo que realmente importa.
Alguém disposto a continuar escolhendo ficar.
Mesmo quando não houver motivo para celebrar.
Mesmo quando ninguém estiver olhando.
Mesmo quando a vida estiver vestida de rotina.
Porque, no fim das contas, o amor mais bonito não é aquele que aparece no dia 12.
É aquele que acorda no dia 13 e decide ficar.
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