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18/06/2026 12:12 | Colunistas
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por Aline Borges

O dia em que não escrevi

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Hoje eu não escrevi.

Pelo menos foi o que repeti para mim mesma durante todo o dia.

Acordei com fraqueza nas pernas e aquele velho medo que acompanha quem já teve o corpo transformado em território inimigo. Aquela mesma dor lancinante. Passei horas sem conseguir urinar. Horas. Dessas que a gente conta no relógio e também na alma.

Escrever? Nem pensar.

O máximo que consegui produzir foi preocupação. Ganhei uma boa dose de névoa mental e café na cama.

No meio da tarde, depois de um banho quente e muita insistência do meu organismo em fingir que não possuía uma bexiga, finalmente consegui que o bexigoma se desfizesse lentamente. Nunca pensei que chegaria aos quarenta e oito anos comemorando algo tão básico como fazer xixi, mas a vida tem um senso de humor peculiar.

Caminhei um pouco melhor.

Respirei.

Sobrevivi.

Como prêmio de consolação, a luminária nova foi finalmente instalada ao lado da cabeceira.

Sempre jaz algo de bom no chão do caos.

Passei horas encarando o meu Diário do Ser.

Mais de quatrocentas páginas de beleza, reflexões e exercícios.

Ao final de um longo período de convivência silenciosa entre nós dois, consegui realizar uma tarefa extraordinária:

escrever o meu nome.

Só.

O resto do tempo passei brigando com a dor, a disautonomia e a fadiga.

Então fiz o que toda adulta responsável faz quando não consegue organizar os pensamentos.

Peguei lápis de cor.

Colori um desenho.

Devagar.

Sem meta.

Sem produtividade.

Sem culpa.

A mão doeu, mas não me surpreendeu.

Descobri que o azul continua sendo minha cor favorita.

Talvez porque seja a cor do céu.

Talvez porque seja a cor que me traz paz.

Talvez porque, em alguns dias, o céu seja o lugar mais próximo da esperança que consigo alcançar.

Enquanto eu coloria, a mente vagava.

Devagar.

E foi nesse vagar que aconteceu uma coisa curiosa.

As palavras começaram a brotar.

Não no papel.

Em mim.

Nasceu o título de um futuro livro.

Surgiram frases.

Insights.

Ideias para marcadores.

Projetos.

Histórias.

Mais algumas das minhas tradicionais novecentas e oitenta e sete abas mentais, todas abertas ao mesmo tempo e tratando de assuntos completamente distintos.

E eu, sinceramente convencida de que não havia escrito nada.

Agora é madrugada.

O Diário do Ser está fechado.

As canetinhas descansam.

O piano toca um clássico nos meus fones.

As ideias estão anotadas para não escaparem durante a noite.

E percebo que talvez eu tenha passado o dia inteiro enganada.

Talvez escrever não seja apenas colocar palavras numa página.

Talvez escrever também seja observar.

Sentir.

Colorir.

Sobreviver.

Talvez existam dias em que a escrita aconteça antes do texto.

A dor não diminuiu.

Nem com toda a minha intenção.

Eu é que mudei o foco.

Na cortina abriu uma fresta.

A luz do poste rasga a parede feito bisturi cortando a pele.

Vou ter que levantar.

Droga.

Amanheceu.

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💬 Comentários


Namaria em 19/06/2026 14:32

Aline, vc é surprendentemente incrível!
É poesia pura, uma caixa de sentimentos fortes que se misturam e vc renasce cada vez mais lapidada, mais linda!
Que Deus a abençoe infinitamente e cuide desta amiga com o maior zelo!
Vc é uma guerreira vitoriosa!!!
Bj.

Alda em 18/06/2026 14:43

É ex-vizinha,como é bom ser sua amiguinha.
Peço sempre a Deus para que as suas dores sejam amenizadas e que voce seja curada!
Continue nos incentivando com suas palavras

Mauricéia em 18/06/2026 14:30

Que Deus continue te dando forças nessa luta diária. Continue escrevendo, você é perfeita nas palavras. Bjos
Fique bem 🥰

Aracelia Amil em 18/06/2026 13:40

Vc foi feita de luz ,Vc me encanta a cada dia!Amo te!❤️

Marta em 18/06/2026 13:01

Vc eh um ser incrível! Iluminado!
Que honra te ter em minha vida!
Amo vc!