Hoje eu não floresci.
E, para falar a verdade, nem tentei.
Vivemos numa época em que tudo precisa virar superação. Se a vida te derruba, você levanta e dá aula. Se chove, você dança na enxurrada. Se quebra, vira kintsugi. Se sofre, vira post no Instagram.
Existe quase uma obrigação silenciosa de transformar cada cicatriz em palestra motivacional.
Mas hoje eu não queria ser exemplo.
Hoje eu queria ser só gente.
Gente que acorda cansada.
Gente que olha para a lista de tarefas e sente vontade de fingir que não sabe ler.
Gente que vê a louça na pia, a roupa esperando, as mensagens acumuladas, os projetos inacabados e pensa:
— Não. Hoje não.
Não porque desistiu.
Não porque perdeu a fé.
Não porque deixou de sonhar.
Mas porque ninguém foi feito para viver em estado permanente de batalha.
A natureza sabe disso. Nenhuma árvore floresce o ano inteiro, nenhum campo é sempre verde, e até os rios se encolhem na seca.
Só nós, humanos, inventamos essa ideia estranha de produtividade infinita.
Será que descansar é falha? Será que pausar é pecado? Será que a gente só vale pelo que consegue fazer antes de dormir?
Talvez por isso eu tenha decidido me dar uma licença.
Uma licença para não render.
Uma licença para não ser forte.
Uma licença para não ter respostas.
Uma licença para deixar algumas coisas para amanhã.
Porque existe uma diferença enorme entre desistir e repousar.
A semente que parece parada sob a terra não está desistindo.
Ela está criando raízes.
E raízes nunca aparecem para quem olha de fora.
Talvez seja isso que tantas pessoas não entendam.
Nem toda batalha faz barulho.
Nem toda vitória vem acompanhada de aplausos.
Às vezes, vencer é só sobreviver às próximas 24 horas.
É levantar, tomar banho, responder uma mensagem, alimentar os filhos, dar água ao cachorro, tomar os remédios.
Há dias em que isso exige mais força do que qualquer medalha poderia medir.
Hoje eu não floresci.
Mas também não morri.
E, dependendo da tempestade que cada um enfrenta, isso já merece ser comemorado.
Amanhã, quem sabe, eu volte a florescer.
Ou talvez depois de amanhã.
As flores não consultam calendário.
Elas apenas respeitam o próprio tempo.
Porque algumas das coisas mais bonitas só nascem quando a gente para de exigir flores de uma estação feita para criar raízes.
Em silêncio.
Um dia de cada vez.
A estação das raízes
Hoje você não floresceu.
E talvez isso não seja fracasso. Talvez seja apenas natureza.
Há uma crueldade disfarçada de conselho no mundo contemporâneo: a de exigir que toda dor vire imediatamente aprendizado, que toda queda produza legenda bonita, que toda tempestade termine em fotografia sorridente. A modernidade, tão líquida como descreveu Zygmunt Bauman, escorre pelas mãos e não permite permanência. Tudo precisa ser rápido: a cura, a resposta, a superação, o sucesso, a fé, o luto, o retorno à produtividade.
Mas a alma humana não funciona por aplicativo. Não atualiza por comando. Não floresce sob ameaça.
Há dias em que a pessoa não desiste da vida; apenas não consegue carregá-la com a mesma elegância de ontem. Há dias em que atender ao telefone parece audiência solene; lavar um copo parece travessia; abrir os olhos já exige uma coragem que ninguém vê. E, porque ninguém vê, quase ninguém respeita.
A chuva, como diria o poeta — ou como diria a própria terra, se tivesse voz —, só cai quando precisa cair. Não cai para enfeitar a paisagem. Cai porque há sede escondida no chão. Cai porque a raiz, lá embaixo, onde ninguém aplaude, precisa de água. Cai porque nem todo céu cinzento anuncia ruína; às vezes anuncia preparo.
E é isso que esquecemos. Queremos flores sem aceitar a lama. Queremos primavera sem suportar o inverno. Queremos frutos sem admitir que a semente, antes de romper a terra, vive um tempo inteiro no escuro.
Mario Quintana compreendeu como poucos essa delicadeza das pequenas coisas. Sua poesia não grita; observa. Não empurra o mundo com discursos grandiosos; inclina-se sobre o cotidiano, como quem sabe que a vida verdadeira mora nos detalhes: no silêncio da tarde, na janela, no espanto, na ternura que ainda resta apesar do cansaço.
Por isso, talvez, dizer “hoje eu não floresci” seja menos uma derrota e mais uma honestidade. Uma recusa digna contra a tirania da aparência. Nem todo mundo que sorri está bem. Nem todo mundo que produz está inteiro. Nem todo mundo que repousa está rendido.
Há repousos que são atos de resistência.
Num tempo em que até a dor precisa parecer bonita, escolher não transformar o sofrimento em espetáculo já é uma forma de lucidez. Há cicatrizes que não querem palco. Há lágrimas que não querem lição. Há dias que não precisam virar conteúdo; precisam apenas passar.
E passam.
Passam como passam as chuvas demoradas. Passam como passam as noites de febre. Passam como passam as estações que pareciam eternas. Não passam sempre levando tudo; às vezes deixam marcas, poças, galhos quebrados. Deixam a terra mais funda, mais úmida, mais pronta.
A semente não dá entrevista enquanto cria raízes. A árvore não pede desculpas por não florescer em julho. O rio não se humilha quando baixa. A lua não se considera menos lua quando míngua.
Só o ser humano aprendeu a se cobrar por não ser permanente espetáculo.
Então, se hoje você não floresceu, talvez baste lembrar: você ainda está aqui. E estar aqui, em certos dias, já é uma forma silenciosa de milagre. Não o milagre cinematográfico, com luz dourada e música ao fundo, mas o milagre simples de continuar respirando, tomando remédio, cuidando dos filhos, respondendo uma mensagem, aceitando um copo d’água, deixando a louça para depois sem transformar isso em culpa moral.
Há uma diferença imensa entre abandono e pausa. Entre desistir e recolher-se. Entre morrer por dentro e apenas precisar de sombra.
Hoje você não floresceu.
Mas talvez tenha criado raízes.
E raízes, como as grandes fidelidades da vida, não aparecem para quem passa depressa. Elas trabalham no escuro, no silêncio, no invisível. Um dia, quando a flor vier — se vier amanhã, depois de amanhã, ou quando Deus e a terra entenderem que chegou a hora —, talvez todos elogiem a beleza da pétala.
Poucos saberão da chuva.
Poucos saberão da noite.
Poucos saberão que, antes de florir, você apenas permaneceu.
E permanecer, em certos temporais, já é uma vitória inteira.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
QUINTANA, Mario. Caderno H. Porto Alegre: Globo, 1973.
Perfeito prima!
Devemos, podemos e merecemos.
👏🏻👏🏻👏🏻Perfeito mesmo, precisamos ter pausas, ter um olhar para nós mesmas, se desligar de tudo e sentir paz, tranquilidade, respirar,… merecemos viver e não sobreviver!
Muito perfeito o texto ,cada vez maisinpirada .
Deu continue te iluminando.
Excelente reflexão!!!
Muito profunda sua reflexão. Só quem tem muita força interior é capaz de enfrentar suas dificuldades sem alarmar e nem desesperar os que estão à sua volta.Ja ouvi uma vez que a vida é como uma roda gigante uma hora está em cima ,outra embaixo,às vezes pára,mas não precisa se desesperar porque ela volta a girar.Muita saude ,paz,equilíbrio, sabedoria e dias melhores virão.