Há um silêncio que só existe depois da derrota.
Não é o silêncio da madrugada, nem o da biblioteca. É um silêncio diferente, daqueles que invadem as ruas depois do apito final. As bandeiras continuam penduradas nas janelas, mas já não dançam. As cadeiras de plástico permanecem nas calçadas, agora vazias. A televisão ainda está ligada, mas ninguém presta atenção no comentarista tentando explicar o inexplicável.
O Brasil perdeu.
Curioso como um jogo consegue mudar o humor de um país inteiro. Há poucos minutos, havia buzinas, abraços entre desconhecidos, crianças correndo com a camisa amarela e adultos fazendo contas sobre o caminho até a final. Bastaram noventa minutos para que a esperança voltasse a caber dentro de uma gaveta, ao lado da bandeira cuidadosamente dobrada.
Quem olha de fora talvez ache exagero. “É só futebol”, dizem.
Mas nunca foi só futebol.
É a avó que prepara o almoço mais cedo para ninguém perder o início da partida. É o pai que explica a regra do impedimento pela décima vez ao filho, mesmo sabendo que ele vai perguntar de novo no próximo lance. É o vizinho que empresta a televisão maior, o cachorro vestido de verde e amarelo, a rua inteira comemorando um gol como se todos morassem na mesma casa.
Na Copa, o Brasil se reconhece. Por alguns dias, esquecemos diferenças, opiniões e pressas. Somos apenas torcedores acreditando que, desta vez, a história terá um final feliz.
Quando a eliminação chega, ela leva consigo mais do que um sonho esportivo. Leva a desculpa para reunir a família no meio da semana, o grupo de mensagens cheio de palpites, a criança que já imaginava desenhar a sexta estrela na escola.
Mas existe algo que nenhuma derrota consegue levar.
A capacidade de acreditar outra vez.
Porque o brasileiro sofre de um jeito curioso: lamenta hoje, reclama amanhã, promete nunca mais criar expectativa… e, quando a próxima Copa começa, veste novamente a mesma camisa, pendura outra vez a bandeira na janela e canta o hino com os olhos brilhando, como se o coração nunca tivesse sido derrotado.
Talvez seja esse o nosso maior título.
Não as cinco estrelas bordadas no peito, mas essa insistência bonita de continuar sonhando, mesmo depois que o juiz apita o fim.
Afinal, campeonatos terminam. A esperança, essa teimosa, sempre encontra um jeito de entrar em campo de novo.
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