Outro dia olhei para as minhas mãos.
Não foi um olhar apressado, desses que a gente lança enquanto passa um creme ou escolhe um esmalte.
Foi um olhar de quem reencontra uma velha conhecida.
As unhas estavam frágeis depois de retirar o gel. Finas como uma folha de papel 75 g.
Passei o polegar sobre uma delas, quase com medo de que se rasgasse.
(E rasgou mesmo!)
Sorri.
Engraçado como a vida gosta de brincar com as metáforas.
Porque aquelas mesmas mãos que hoje me pareciam tão delicadas já fizeram coisas extraordinárias.
Elas seguraram meus 3 filhos pela primeira vez.
Acalmaram febres.
Secaram lágrimas.
Vestiram fantasias escolares.
Prepararam lanches.
Aplaudiram apresentações.
Seguraram mãos pequenas para atravessar a rua e, sem perceber, foram ensinando aos poucos o caminho da vida. E hoje são eles que me dão as mãos.
Essas mãos também foram mãos de enfermeira.
Cuidaram de pessoas em seus dias mais difíceis.
Aprenderam que, às vezes, um toque pode aliviar dores que remédios não alcançam.
Foram mãos que trabalharam, serviram e acolheram.
Depois vieram as mãos de artesã.
Mãos que transformavam simples folhas de papel em flores, caixas, convites e até uma Nossa Senhora inteira, feita camada por camada.
Por muito tempo, achei que aquela fase tivesse ficado para trás.
Porque a vida também muda as mãos.
A idade muda.
A doença muda.
As dores mudam.
Há movimentos que já não acontecem com a mesma facilidade.
A dança dos dedos está mais lenta.
Há dias em que elas doem.
Muito.
Há dias em que se cansam antes de mim.
E confesso que existe um pequeno luto em perceber que nossas mãos já não conseguem fazer tudo aquilo que um dia fizeram.
Mas, enquanto olhava para elas, me ocorreu um pensamento.
Talvez eu tenha sido injusta.
Talvez minhas mãos nunca tenham deixado de criar.
Elas apenas mudaram de idioma.
Antes, recortavam papel.
Hoje, recortam silêncios.
Antes, colavam flores.
Hoje, unem memórias.
Antes, faziam arte com tesoura e cola.
Hoje, fazem arte com palavras.
E talvez seja por isso que eu tenha chorado.
Porque percebi que passei muito tempo olhando para as minhas mãos pensando no que elas perderam.
Quando, na verdade, deveria olhá-las pelo que construíram.
Olhei novamente para elas.
As mesmas mãos que um dia não obedeceram.
As mesmas que precisaram reaprender.
As mesmas que ainda se atrapalham tentando acompanhar a velocidade absurda da floresta que habita a minha mente.
Não é fácil viver em mim.
Às vezes, os pensamentos crescem mais rápido do que os dedos conseguem registrar.
Os galhos se multiplicam.
As ideias florescem.
As palavras se atropelam.
E eu me irrito profundamente por não conseguir colher todos os frutos.
E acabo perdendo alguns.
Mas talvez seja essa a função das mãos.
Não controlar o crescimento da árvore.
Apenas cuidar dela.
Podar aqui.
Regar ali.
Colher o que amadureceu.
Cortar o que apodreceu.
Confiar que o restante saberá esperar.
Passei os dedos sobre minhas unhas mais uma vez.
Continuavam frágeis.
Como uma folha de papel 75 g.
Sorri.
Porque, de repente, me lembrei de uma verdade simples:
é justamente nas folhas mais delicadas que nascem os mais belos poemas.
E talvez seja justamente nas mãos imperfeitas, cansadas e marcadas pelo tempo…
…que a vida continue encontrando um jeito de escrever as suas histórias.
Aline sempre cirúrgica 🌞
Adorei! 👏👏👏👏👏
Amei! Que nossa senhora permaneça ao seu lado!
Mais uma bela contribuição pra uma reflexão !
Temos só a agradecer !
♥️
Parabéns, Aline. É um texto emocionante que nos faz refletir sobre como as mudanças são inerentes a vida, mas sempre devemos olhá-las com carinho e perseverança.
Estou aqui totalmente emocionada ao ler teu texto e literalmente sei bem o que é este sentimento que hj vc vive. Lidar com as limitações de uma doença autoimune é um desafio diário que exige muito autoconhecimento e resiliência. É completamente normal sentir frustração ou tristeza ao perceber que o corpo não responde como antes, mas esse processo também é uma oportunidade para redefinir prioridades e praticar a autocompaixão. Qdo descobri que tinha Miastenia Gravis e Polineuropatia Periférica foi como ter sido golpeada por um soco mas infelizmente vc descobre que não é um pesadelo e sim uma realidade e assim vamos seguindo vivendo hj o que nos é possível e tá tudo bem porque isso é a vida. Que Deus abençoe a cada um de nós e que sejamos gratos por estarmos aqui pela VIDA...
Lindo Aline.
Acompanhei suas travessuras c as mãos.
Vc esqueceu dos carinhos q elas me fizeram.
Até hoje .
Qdo vc grita : GINA !!!!