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22/07/2026 14:33 | Articulistas

A falsa sensação de proteção: quando ser mulher ainda significa viver com medo

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Vivemos em um tempo em que muito se fala sobre o fortalecimento da mulher. Conquistamos espaços, ocupamos cargos de liderança, ampliamos direitos e rompemos barreiras históricas. Mas basta abrir o noticiário para perceber que existe uma realidade cruel que insiste em nos lembrar de que, para milhares de mulheres, a liberdade ainda é uma promessa distante.

Os números do feminicídio continuam crescendo. A cada nova vítima, repetem-se as mesmas perguntas: "Ela tinha medida protetiva?", "Já havia registrado ocorrência?", "Por que não saiu daquele relacionamento?". São questionamentos que, muitas vezes, acabam transferindo para a vítima um peso que jamais deveria ser seu.

A verdade é que a violência contra a mulher raramente começa com a agressão física. Ela se instala de forma silenciosa: no controle, na humilhação, no isolamento da família e dos amigos, na violência psicológica, patrimonial e moral. Quando a agressão se torna visível, muitas vezes a vítima já teve sua autonomia destruída. E quando ela finalmente encontra coragem para denunciar, depara-se com outro obstáculo: um sistema que, embora disponha de importantes instrumentos legais, ainda enfrenta dificuldades para oferecer respostas na velocidade que a situação exige.

A Lei Maria da Penha é reconhecida internacionalmente como uma das legislações mais avançadas no combate à violência doméstica. As medidas protetivas representam um avanço inegável e salvam inúmeras vidas. Contudo, sua eficácia depende de uma rede de proteção funcionando de maneira integrada e célere. A ordem judicial, por si só, não cria uma barreira física entre agressor e vítima. Quando há demora na apreciação dos pedidos, deficiência na fiscalização ou ausência de estrutura para garantir seu cumprimento, a sensação de segurança pode não corresponder à realidade enfrentada pela mulher.

A insegurança também ultrapassa os limites da casa. Ela está nas ruas, nos transportes públicos, nos ambientes de trabalho e até nos espaços que deveriam representar acolhimento. Muitas mulheres mudam seus horários, alteram seus trajetos, evitam determinados lugares e vivem permanentemente em estado de alerta. Não porque sejam frágeis, mas porque aprenderam, desde cedo, que a violência pode surgir a qualquer momento.

Há ainda um aspecto pouco discutido: as barreiras familiares. Muitas vítimas encontram resistência justamente dentro de casa. O medo do julgamento, a dependência financeira, a preocupação com os filhos, a pressão para "salvar o casamento" e a descrença por parte de familiares tornam a denúncia ainda mais difícil. Em muitos casos, a mulher enfrenta o agressor e, ao mesmo tempo, precisa enfrentar o silêncio daqueles que deveriam apoiá-la.

O Poder Judiciário também enfrenta desafios importantes. A elevada demanda, a insuficiência estrutural e a necessidade de garantir o devido processo legal podem impactar a rapidez das decisões. Entretanto, em situações que envolvem risco concreto à vida, o fator tempo deixa de ser apenas um detalhe processual e passa a representar a diferença entre proteção e tragédia.

Combater o feminicídio exige muito mais do que endurecer penas. Exige educação, prevenção, políticas públicas eficazes, fortalecimento da rede de atendimento, investimento nas Delegacias Especializadas, acompanhamento dos agressores, proteção integral às vítimas e uma atuação coordenada entre os diversos órgãos do Estado. Mais do que isso, exige uma mudança cultural profunda. Enquanto a violência contra a mulher continuar sendo tratada como um problema privado, enquanto houver quem relativize ameaças, normalize o ciúme possessivo ou desacredite a palavra da vítima, continuaremos enxugando gelo.

Nenhuma mulher deveria precisar escolher entre permanecer em silêncio ou arriscar a própria vida para buscar proteção. A verdadeira força feminina nunca esteve em suportar a violência. Está na coragem de romper o ciclo, denunciar, reconstruir a própria história e exigir que o Estado cumpra seu dever de garantir aquilo que a Constituição promete a todos os cidadãos: o direito à vida, à dignidade e à segurança. Porque uma sociedade só pode se considerar verdadeiramente justa quando nenhuma mulher precisar viver com medo de simplesmente existir.

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