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23/07/2026 12:34 | Articulistas

Sala de espera

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A vida tem um senso de humor peculiar.

Enquanto uma parte de mim conta os dias para entrar na Bienal do Livro como escritora, outra continua contando os minutos até ouvir meu nome ecoar na porta de um consultório.

É curioso viver entre esses dois relógios.

Um mede sonhos.

O outro mede sintomas, diagnósticos e a delicada arte de aprender a esperar.

Há quem imagine que, quando um sonho finalmente acontece, os problemas fazem as malas e vão embora.

Não funciona bem assim, caro leitor.

Os exames continuam chegando.

Os laudos continuam sendo impressos.

A coleção de CIDs cresce em silêncio, como quem monta uma biblioteca que ninguém gostaria de inaugurar.

As receitas continuam sendo renovadas.

E eu continuo aprendendo nomes de vértebras, nervos e medicamentos que jamais sonhei pronunciar.

A diferença é que, hoje, na bolsa onde antes cabiam apenas exames, também cabe um livro.

Ou melhor…

Cabe uma escritora.

Demorei anos para entender que as duas podiam dividir o mesmo espaço.

Durante muito tempo, acreditei que precisava melhorar para começar a viver.

Esperava, consciente, por uma cura que talvez nunca chegasse.

Só depois percebi que a vida não estava me esperando.

Ela seguia adiante enquanto eu aguardava resultados.

Acontecia nas fisioterapias.

Nas salas de espera.

Nos corredores dos hospitais.

Nas conversas baixas da recepção.

No café apressado entre uma consulta e outra.

Acontecia, inclusive, nos dias em que eu jurava que nada estava acontecendo.

E era justamente nesses dias que ela me surpreendia.

Dias depois, durante mais uma crise de dor que nem a morfina conseguia calar, eu entendia que a vida havia passado por mim de mansinho, enquanto eu insistia em olhar apenas para o diagnóstico.

Talvez seja por isso que eu escreva.

Escrever sempre foi a maneira mais bonita que encontrei de impedir que a doença fosse a única autora da minha história.

Ela escreveu capítulos difíceis.

Não nego.

Rabiscou páginas inteiras.

Rasgou algumas.

Molhou outras com lágrimas.

Mas nunca permiti que assinasse a última folha.

Daqui a pouco serei chamada pelo meu nome.

Entrarei em mais um consultório.

Mais um procedimento.

Mais um risco cirúrgico.

Provavelmente sairei de lá com novas orientações, novos cuidados e algumas perguntas que ainda não encontrarão resposta.

Mas também sairei de lá exatamente como entrei em tantas outras salas de espera ao longo destes últimos anos:

Com uma história ainda em construção.

E muitos ponto e vírgulas aguardando o momento certo de existir.

Aprendi que a vida raramente nos entrega pontos finais.

Na maior parte do tempo, ela nos oferece pausas.

Respiros.

Travessias.

Caminhos.

O ponto final sempre nos seduz.

Ele transmite a falsa impressão de controle.

De conclusão.

De certeza.

Mas a vida nunca gostou de certezas.

Ela prefere os caminhos.

Prefere as curvas.

Prefere aquilo que ainda pode florescer.

Talvez seja por isso que eu tenha aprendido a amar o ponto e vírgula.

Ele não nega a dor.

Não apaga a frase anterior.

Também não finge que tudo terminou.

Ele apenas sussurra que ainda há uma continuação.

E, pensando bem, talvez seja exatamente assim que Deus escreva.

Quando nós acreditamos ter chegado ao fim da linha, Ele apenas apoia a pena sobre o papel, desenha um discreto ponto e vírgula e segue escrevendo.

O ponto final…

Esse nunca esteve nas minhas mãos.

Nem nas dos médicos.

Nem nas da doença.

Esse, desde o princípio, pertence ao Autor da minha história.

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💬 Comentários


Eliza Cancio em 24/07/2026 19:07

O ponto final é o recomeço de uma nova vida...Em Cristo!
Parabéns pela sua caminhada, pela força vital que enana de todos os seus poros, pelo amor incondicional aos teus. Só te vi uma única vez, mas o suficiente para sacar sua força e luta. O Guillan Barré e seja qualquer outra enfermidade não te vencerá, porque você é a resiliência viva. É uma força da natureza! Parabéns cara escritora!

Magna Maria em 23/07/2026 14:01

Assim é a vida…um ir e vir…ora sonhos, ora realidade e nós neste palco regendo a vida com nossas percepções e emoções…vc arrasou!! Continue sendo esta mulher que opta por SONHAR!!

Laura em 23/07/2026 12:44

🙏🏼