Após a pandemia, os transtornos de ansiedade aumentaram em 25%, segundo a OMS. Mas o que é a ansiedade? Como ela me atrapalha? Como ela me ajuda? Sim, ela tem seu papel, nos ajudando. Precisamos, com calma, diferenciar os transtornos de ansiedade da ansiedade como emoção.
A emoção ansiedade está e sempre esteve presente em todos os seres humanos, desde sempre. O homem pré-histórico lidava com problemas no seu dia a dia: perigos, fome, necessidades de alimentação, fuga. Nesse contexto, a ansiedade funcionava como um sistema de proteção.
Vamos dar um exemplo desse sistema: um Homo sapiens estava cuidando da sua vida e seguindo sua rotina. Sei lá, pintando umas paredes. Quando, de repente, escuta um barulho vindo da floresta. Nesse momento, atua nele um processo muito importante para a sobrevivência da nossa espécie. Resumidamente, uma parte do seu cérebro chamada amígdala detecta que esse barulho pode ser uma ameaça. Pode ser um leão. E então envia sinais para o hipotálamo, que, de maneira rápida, ativa o sistema nervoso simpático, que faz a adrenal liberar adrenalina. Esta, por sua vez, aumenta a pressão arterial, dilata as pupilas e faz a respiração ficar mais rápida… Afinal, nosso amigo precisa se decidir em uma fração de segundo: vou fugir ou vou lutar?
Percebe? A ansiedade deu mecanismos fisiológicos para que o nosso parente distante conseguisse criar sua própria sobrevivência. Hoje, nosso leão mudou um pouco de forma. Temos contas para pagar, problemas de saúde, prova para estudar, uma barata… Isso significa que é normal sofrer por ansiedade? Claro que não. Agora entraremos no tópico mais importante: como saber se essa ansiedade passou do ponto? Vamos tentar entender e diferenciar a ansiedade como emoção da ansiedade como um transtorno.
A emoção ansiedade, assim como a tristeza, a raiva e a felicidade, faz parte do ser humano. Geralmente, ela aparece diante de um desafio e tende a diminuir quando a situação é resolvida. Já o transtorno de ansiedade é como uma avalanche: ele começa pequeno e, pouco a pouco, vai crescendo e carregando tudo à sua frente. Temos que ter em mente que os transtornos de ansiedade são desproporcionais ao ocorrido, geram pensamentos catastróficos, de difícil controle. Seu chefe manda uma mensagem, um simples bom dia. Sua mente já corre para: “O que eu fiz? Vou ser demitido. Como vou pagar minhas contas?”. Uma simples mensagem gerou um desconforto muito grande.
Portanto, quando devo procurar ajuda? Sempre se pergunte se sua ansiedade está proporcional ao problema, se os sintomas persistem por mais tempo do que deveriam ou se mudam de formato, se é difícil controlar esses pensamentos, se há sintomas físicos, como taquicardia, fadiga e tensão muscular, se está prejudicando seu sono, sua alimentação, seu trabalho e suas relações. Muitas vezes, não é tão simples responder a essas perguntas. É um exercício diário procurar se observar e se entender, ter cuidado e carinho consigo mesmo para se compreender. Nesse contexto, a terapia é fundamental.
Se está tudo pesado demais, difícil demais, peça ajuda. Sentir ansiedade faz parte de ser humano. Sofrer com ela todos os dias, não. Se ela tem ocupado espaço demais na sua vida, pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É uma forma de cuidar da pessoa com quem você vai conviver pelo resto da vida: você mesmo.
Excelente explicação. Do ponto de vista da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), é importante reforçar que a ansiedade, antes de ser um transtorno, é uma emoção adaptativa, desenvolvida para aumentar nossa capacidade de perceber riscos e nos preparar para agir. O problema não está em sentir ansiedade, mas na forma como interpretamos as situações e nas estratégias que utilizamos para lidar com ela. Quando o cérebro passa a superestimar ameaças e subestimar a própria capacidade de enfrentamento, surgem pensamentos automáticos, comportamentos de evitação e sintomas físicos que mantêm o ciclo ansioso. Por isso, na psicoterapia o tratamento busca modificar essas interpretações e desenvolver habilidades para enfrentar, e não evitar, aquilo que gera medo.
Psiquiatria e psicologia, ciências aliadas na bem estar e saúde mental.