Meu pai morreu quando eu tinha onze anos.
Farei quarenta e nove em novembro e, às vezes, ainda choro como aquela menina que estudava na quinta série.
É estranho o que a morte faz com o tempo.
Meu corpo envelheceu. Tive filhos. Atravessei doenças, perdas, medos, hospitais. Tomei decisões que aquela menina sequer saberia nomear. Aprendi que adultos não sabem todas as respostas, que heróis têm defeitos e que algumas fortalezas também desabam.
Mas há uma parte de mim que continua tendo onze anos.
Ela aparece quando falo do meu pai.
Talvez algumas saudades não envelheçam conosco.
Talvez fiquem paradas exatamente na idade em que nasceram.
Hoje é Dia dos Pais.
E enquanto tanta gente procura fotografias, compra presentes, reserva mesas e escreve homenagens, penso nos diferentes tipos de ausência que cabem nesta data.
Há pais que morreram.
Há pais que foram embora.
Há pais que nunca chegaram.
Há pais que moram na mesma casa e, ainda assim, os filhos passam a infância inteira esperando que eles apareçam.
Porque presença não é endereço.
Assim como ausência nem sempre significa não estar mais aqui.
Meu pai está morto há quase quatro décadas e continua aparecendo em mim.
Está em coisas que digo sem perceber.
Em valores que carrego.
Naquilo que não negocio.
Em alguma reação minha diante da vida que, de repente, reconheço e penso: isso veio dele.
A morte levou o corpo do meu pai.
Não conseguiu levar a paternidade.
Talvez porque pais sejam nossas primeiras referências de força antes mesmo de entendermos o que significa ser forte.
Quando somos pequenos, eles parecem enormes.
São os braços capazes de alcançar aquilo que não alcançamos, as mãos que consertam o que quebramos, a voz que diz “eu estou aqui” quando o mundo parece grande demais.
Nossos primeiros heróis não usam capas.
Às vezes usam chinelos.
Erram.
Perdem a paciência.
Não sabem o que dizer.
Carregam seus próprios fantasmas enquanto tentam esconder dos filhos que também sentem medo.
Só descobrimos isso quando crescemos.
E talvez crescer seja também o doloroso processo de transformar nossos heróis em seres humanos sem deixar de amá-los por isso.
Mas a minha história com a paternidade não terminou aos onze anos.
Deus, que não devolve aquilo que perdemos, encontra outras maneiras de cuidar de nós.
Anos depois, colocou outro homem no nosso caminho.
Ele não tentou ocupar o lugar do meu pai.
Há lugares dentro da gente que não precisam ser ocupados novamente. Precisam ser respeitados.
Orlando fez outra coisa.
Construiu o próprio lugar.
Casou-se com a minha mãe há trinta anos e, junto com ela, vieram duas filhas que ele não gerou.
Mesmo assim, escolheu ser pai.
Não teve filhos biológicos. Nem antes, nem depois. Mas talvez a biologia seja apenas uma das maneiras pelas quais a vida entrega filhos a alguém.
Nós fomos entregues a ele já com histórias, memórias, personalidade e um pai que continuava — e continua — existindo dentro de nós.
E ele teve a delicadeza de não disputar com alguém que já havia feito morada.
Apenas ficou.
Permaneceu.
Ficou nos anos.
Nos problemas.
Nas comemorações.
Nas preocupações.
Na família que continuou crescendo.
Ficou tempo suficiente para que “padrasto” já não desse conta da palavra.
Aqui em casa, inventamos outra:
bomdrasto.
Porque há homens que geram filhos.
E há homens que são pais pelo amor.
Talvez eu tenha aprendido cedo demais que um pai pode partir.
Mas também tive a sorte de aprender que a paternidade pode chegar.
Meu pai me ensinou que o amor permanece mesmo depois da morte.
Meu bomdrasto me ensinou que o amor também pode nascer depois dela.
Nenhum substituiu o outro.
Os dois me ensinaram, de maneiras diferentes, o significado da palavra presença.
Meu pai não estava aqui quando me casei.
Orlando entrou comigo na igreja.
Um pai casando a filha.
As lágrimas saltavam mais dos olhos dele do que dos meus.
Naquele dia, ninguém precisou explicar qual era o nosso vínculo.
O amor já havia feito isso durante anos.
Porque o amor pode até nascer de repente.
Mas precisa ser regado para permanecer.
E então a vida me colocou do outro lado da história.
Tornei-me mãe.
E passei a observar a paternidade não mais com os olhos da filha que perdeu o pai, mas também com os olhos da mulher que vê um homem tornar-se pai de seus filhos.
Foi assim que entendi que grande parte da paternidade acontece longe das fotografias do Dia dos Pais.
Acontece numa terça-feira qualquer.
Na escola.
No médico.
Na arquibancada.
Na febre da madrugada.
Na bronca necessária.
Na conversa constrangedora.
No boleto.
Na espera.
No caminho.
Nos pequenos rituais que parecem insignificantes enquanto acontecem e que, muitos anos depois, talvez sejam exatamente aquilo que os filhos chamarão de infância.
Um homem não precisa ser perfeito para ser um bom pai.
Ainda bem.
Filhos não precisam de heróis infalíveis.
Precisam de adultos presentes o suficiente para que possam descobrir, com segurança, quem são.
Pais ajudam a construir aquilo que um dia chamaremos de caráter.
São uma das primeiras fronteiras entre nós e o mundo, uma das primeiras referências de limite, proteção, responsabilidade, coragem e pertencimento.
Talvez por isso a palavra “pai” seja tão pequena para carregar tanta coisa.
Meu pai teve apenas onze anos para fazer isso comigo.
Onze.
Durante muito tempo achei pouco.
Hoje percebo a enormidade deles.
Porque quase quarenta anos depois de sua morte ainda encontro pedaços daqueles onze anos espalhados pela mulher que me tornei.
Orlando chegou depois.
Não apagou nada.
Acrescentou.
E, quando meus filhos nasceram, pude assistir a uma nova história de paternidade começar diante dos meus olhos.
Três histórias diferentes.
Três maneiras de aprender que ser pai tem muito menos a ver com perfeição do que com presença.
Para quem tem o pai à mesa hoje, que consiga enxergar o privilégio escondido na banalidade dessa presença.
Pergunte alguma coisa que nunca perguntou.
Escute uma história repetida.
Tire a fotografia.
Dê o abraço.
Fique mais cinco minutos.
Um dia, cinco minutos podem valer uma fortuna.
Para quem olha hoje para uma cadeira vazia, eu não tenho nenhuma frase bonita capaz de preenchê-la.
Conheço cadeiras vazias.
Elas não aceitam consolo barato.
Só posso dizer que algumas pessoas encontram um jeito misterioso de continuar existindo dentro de nós.
Meu pai encontrou.
Hoje tenho quarenta e oito anos.
Mas, em algum lugar dentro de mim, uma menina da quinta série ainda procura pelo pai.
Às vezes ela chora.
Eu deixo.
Depois pego sua mão.
E seguimos juntas.
Porque meu primeiro herói não está mais aqui para me mostrar o caminho.
Mas deixou o farol aceso.
Maravilhoso!
Texto profundo e lindíssimo. Um farol de afeto e amor!
Parabéns Aline pelas lindas e sábias palavras. Que linda e merecida homenagem a Orlando. Que Deus continue abençoando vcs e esse dom maravilhoso que vc tem em suas escritas. Parabéns a todos Pais de sua família !!❤️🌹❤️
Lindo Aline! ❤️
Aline, seu coração é maior que você!!
Não mereço tanta consideração!! Fiz o que eu podia e devia fazer, por você e sua irmã, enquanto “Bomdrasto”!! Sou grato a Deus, por ele ter me dado de presente essa Família, e ela ter me aceitado!! Podíamos ter seguido nossas vidas como estava, mas Ele sabia que precisávamos uns dos outros!!!!
E graças a Ele, estamos aí juntos a mais de 32 (trinta e dois) anos, e a nossa Família cresceu!! Me tornei Avô de 05 (cinco) maravilhosas crianças, algumas já adolescentes, que eu amo com todo o meu coração!! E sinto que esse amor é plenamente correspondido de forma pura e genuína!!
Agradeço emocionado sua homenagem, e digo e repito, meu maior legado é minha linda Família, que amo e amarei até quando Deus me permitir!!
Aproveito o ensejo, para parabenizar e agradecer aos meus genros Ricardo e Lessando, pelo Dia dos Pais, e agradecê-los pelos pais amorosos e zelosos com suas Famílias, que é a minha grande Família, que eles tem sido, desde que entraram na minha Família!!
Deus te abençoe Querida e Amada Filha!! Assim como ao seu marido e seus 03 (três) lindos garotos, meus netos queridos Rafa, Tutuco e Dudu, meu “Duda”, neto e afilhado amado!!❤️🙏🏼
Menina de ouro!
Que coração gigante!
Mais uma vez, um texto espetacular!
Que lembanças lindas e que presente maravilhoso!
Dois pais, dois amores distintos mas igualmente amados!
Vc cultiva um sentimento que considero fortíssimo: Gratidão! Por isso, ama tanto na mesma proporção que é amada!
Saudades de vc.
Parabéns, Aline!
O domingo dos país, hoje, está mais lindo que os outros.
Obrigada!
Vc é impecável
uau ! Sem fôlego aqui ! obrigada por esse texto…