A volta às aulas chegou.
E, com ela, aquela delicada tradição materna chamada:
ACORDA.
CORRE.
CHAMA.
CHAMA DE NOVO.
MANDA ESCOVAR OS DENTES.
PERGUNTA SE ESCOVOU.
PROCURA A GARRAFA.
PROCURA O TÊNIS.
PERGUNTA DA MOCHILA.
VOLTA PARA BUSCAR O QUE ESQUECERAM.
MANDA ENTRAR NO CARRO.
LEVA.
BUSCA.
ALIMENTA.
ORGANIZA.
LEVA DE NOVO.
BUSCA DE NOVO.
E tenta lembrar em que momento do dia você deveria ter existido também.
A rotina volta para os filhos.
Para a mãe, volta a operação logística.
Horário.
Uniforme.
Lanche.
Trânsito.
Atividade.
Terapia.
Curso.
Esporte.
Material.
Mensagem da escola.
Grupo de WhatsApp.
Trabalho.
Casa.
— Mãe, amanhã precisa levar cartolina.
Claro.
Porque aparentemente a cartolina só passa a existir no planeta Terra às dez da noite da véspera do trabalho.
E amanhã começa tudo outra vez.
A gente fala muito sobre a volta às aulas das crianças.
Pouco sobre a volta às aulas das mães.
Porque elas também voltam.
Voltam aos despertadores.
Aos horários apertados.
Às manhãs em que cinco minutos de atraso parecem capazes de provocar o colapso de todo o sistema educacional brasileiro.
Voltam a passar boa parte do dia olhando para o relógio e calculando mentalmente quanto tempo falta para precisar sair novamente.
Só que existe uma parte dessa história que quase nunca aparece nas fotos de “volta às aulas”.
A mãe também acorda cansada.
Às vezes acorda doente.
Às vezes não dormiu.
Às vezes passou a madrugada cuidando de alguém.
Às vezes está preocupada.
Às vezes está triste.
Às vezes está com dor.
Eu sei exatamente como é abrir os olhos pela manhã e perceber, antes mesmo de colocar os pés no chão, que o corpo não vai colaborar.
A dor acordou antes de mim. Na verdade, ela nem dorme.
Está lá.
Esperando.
Há manhãs em que levantar da cama já parece uma atividade completa do dia.
Mas tem filho para levar.
E essa talvez seja uma das coisas mais difíceis de explicar sobre a maternidade quando se vive com dor crônica:
a dor não suspende a rotina.
Não existe um botão escrito:
“Hoje a mãe não está funcionando. Favor remarcar a terça-feira.”
Não tem atestado para o despertador.
O neuro não deixa tomar morfina.
Não tem licença para o horário de entrada.
Não tem como telefonar para a vida e avisar:
— Hoje não vai dar. Meu corpo dói demais. Podemos deixar tudo para quinta?
A aula começa no mesmo horário.
O filho precisa chegar.
Alguém precisa preparar alguma coisa.
Alguém precisa lembrar.
Alguém precisa dirigir.
Alguém precisa ir.
Então você levanta.
Devagar.
Tonta. Torta.
Gritando por dentro.
Negociando com cada parte do corpo para sobreviver ao dia.
“Só até o banheiro.”
“Agora coloca a roupa.”
“Só preciso chegar até o carro.”
E vai.
Vai com dor mesmo.
Não porque seja bonito.
Não porque seja inspirador.
Não porque exista alguma medalha esperando na porta da escola.
Vai porque, muitas vezes, não existe outro jeito.
E eu acho importante dizer isso porque transformamos mães em guerreiras com uma facilidade assustadora.
Tudo vira força.
Tudo vira superação.
Tudo vira:
“Mãe dá conta.”
Mas nem sempre dá.
Às vezes ela só faz.
O que é bem diferente.
Tem dias em que não existe heroísmo nenhum.
Existe necessidade.
Existe responsabilidade.
Existe amor.
E existe uma mulher fazendo o que precisa ser feito com um corpo que, muitas vezes, precisava estar deitado.
Existe uma diferença enorme entre conseguir e não ter escolha.
Talvez devêssemos prestar mais atenção nisso.
Porque a romantização da mãe que suporta tudo tem um preço.
Se ela consegue levar o filho mesmo doente, então talvez consiga fazer mais uma coisa.
E outra.
E outra.
Até que o extraordinário passe a ser tratado como obrigação.
Até que ninguém mais pergunte:
— Mas e você? Está bem?
Talvez seja por isso que eu pense tanto nas mães que encontro no portão da escola.
Aquela de coque malfeito.
A de óculos escuros às sete da manhã.
A que está quieta demais.
A que esqueceu alguma coisa.
A que chegou correndo.
A que parece cansada.
A que parece perfeitamente bem.
A gente nunca sabe o tamanho da batalha que alguém precisou atravessar só para chegar até ali.
Talvez ela tenha chorado no banho.
Talvez tenha tomado um remédio antes de sair.
Talvez esteja contando os minutos para voltar para casa e se deitar.
Talvez tenha passado a noite inteira acordada.
Talvez o corpo dela esteja gritando enquanto ela pergunta ao filho se colocou o caderno na mochila.
E ninguém percebe.
Porque algumas dores não fazem barulho do lado de fora.
Outro dia pensei que talvez maternidade também seja isso:
fazer coisas absolutamente comuns carregando circunstâncias extraordinárias.
Colocar lanche na mochila.
Pentear um cabelo.
Amarrar um tênis.
Dirigir até a escola.
Esperar no portão.
Dar um beijo.
Dizer:
— Boa aula, meus amores. Vão com Deus. Amo vocês!
E voltar para o carro sabendo que, para você, o dia já exigiu mais do que deveria.
Não quero transformar isso em elogio à exaustão.
Muito menos ensinar que amar significa se destruir pelos filhos.
Não significa.
Mães precisam de ajuda.
Precisam de descanso.
Precisam ser cuidadas.
Precisam poder dizer “não consigo” sem que o mundo desmorone sobre seus ombros.
Mas também existe a vida como ela é.
E, nela, há manhãs em que não conseguimos.
Mesmo assim, precisamos ir.
Então vamos.
Com sono.
Com medo.
Com pressa.
Com culpa.
Com dor.
Às vezes sorrindo.
Às vezes por um fio.
Talvez aquela mãe que você viu hoje deixando uma criança na escola não tenha vencido batalha nenhuma.
Talvez ela nem queira ser chamada de guerreira.
Talvez tenha feito apenas uma coisa:
levantado.
Vestido uma roupa.
Entrado no carro.
Levado o filho.
E voltado para casa.
No automático.
Parece pouco.
Mas há dias em que atravessar a cidade é quase atravessar um oceano.
A volta às aulas acontece todos os anos.
Mas existem mulheres que, todas as manhãs, também precisam voltar.
Para a rotina.
Para o corpo.
Para as responsabilidades.
Para a própria vida — aquela que costuma ficar por último.
Mesmo quando nenhuma dessas coisas parece pronta para recebê-las.
Por isso, da próxima vez que encontrar uma mãe aparentemente comum no portão de uma escola, talvez valha a pena lembrar:
você está vendo apenas que ela chegou.
Você não faz ideia do que ela precisou atravessar para estar ali.
Texto lindo! Parabéns!
Realmente é tudo isso aí diariamente, mais com a Mãe Maria a frente vamos vencendo a cada dia .
Deus te dê, muita saúde, paz e fé.