Há uma mulher que recolhe jabutis.
Não aqueles de histórias infantis, que atravessam estradas lentamente enquanto alguém espera do outro lado. Ela recolhe jabutis de verdade. Pequenos. Teimosos. Silenciosos. Especialistas em desaparecer num quintal onde, teoricamente, não haveria tantos lugares assim para desaparecer.
Eles se chamam Guillain e Barré.
Os nomes costumam provocar primeiro um sorriso e, logo depois, uma pequena hesitação em quem conhece a história.
Porque aquilo que um dia me paralisou agora anda pela minha casa.
Devagar.
Talvez exista alguma espécie de ironia poética nisso.
Durante muito tempo, velocidade foi uma medida de valor para mim. Fazer mais. Resolver mais. Chegar antes. Dar conta. Responder. Produzir. Cuidar. Antecipar.
Até meu corpo decidir que não.
Ele simplesmente interrompeu a corrida.
E eu, que sempre soube viver depressa, precisei aprender uma língua que não conhecia: a do tempo necessário.
Jabutis conhecem essa língua.
Eles não têm pressa para chegar porque aparentemente nunca fizeram nenhum acordo com o relógio.
Guillain atravessa o quintal como quem possui todas as horas do mundo. Barré pode levar uma eternidade para alcançar uma folha que está, sob qualquer perspectiva humana, logo ali.
E alcança.
Sem ansiedade.
Sem se comparar com o jabuti da casa ao lado.
Sem concluir, no meio do caminho, que fracassou porque ainda não chegou.
Às vezes fico olhando os dois e penso no tanto de violência que existe na nossa obsessão por velocidade.
Até para sobreviver parece existir prazo.
Adoeceu?
Melhore.
Fez fisioterapia?
Ande.
Recebeu alta?
Volte à vida.
Continua sentindo dor?
Mas já passou tanto tempo…
Como se o corpo devesse apresentar relatório de produtividade.
Como se recuperação fosse uma estrada reta e todos tivéssemos recebido o mesmo mapa.
Não recebemos.
Há pessoas que voltam correndo.
Outras voltam andando.
Algumas voltam apoiadas em alguém.
E há quem precise parar várias vezes no caminho.
Nenhuma delas está menos viva por isso.
Talvez eu tenha trazido Guillain e Barré para casa achando que cuidaria deles.
E cuido.
Procuro no quintal quando somem, observo o que comem, vigio temperatura, casco, comportamento. Carrego de um lado para outro quando é preciso e converso com eles como se dois pequenos répteis fossem perfeitamente capazes de compreender minhas considerações sobre a existência.
Não descarto essa possibilidade.
Mas, aos poucos, percebi que eles também cuidam de mim.
Todos os dias, dois pequenos animais me lembram que lentidão não é ausência de movimento.
Que pausa não significa desistência.
Que chegar depois continua sendo chegar.
E que talvez viver não seja acompanhar o ritmo das outras pessoas.
Talvez seja descobrir o nosso.
Hoje, quando vejo Guillain e Barré atravessando o quintal naquela lentidão quase insolente, já não penso que estão demorando.
Eles estão indo.
E talvez seja essa a diferença que eu tenha levado tanto tempo para compreender.
Durante anos, achei que viver significava avançar. Depois, precisei reaprender que continuar também pode ser ficar parada, respirar, esperar o corpo permitir e dar um passo quando houver um passo possível.
Guillain e Barré não sabem que carregam nomes de uma doença que um dia levou meus movimentos.
Não sabem que existe alguma poesia estranha no fato de eu passar parte dos meus dias procurando, alimentando e protegendo justamente dois seres cuja principal característica é andar devagar.
Ainda bem que não sabem.
Eles apenas seguem.
E eu sigo também.
Não na velocidade que eu tinha.
Não na velocidade que esperavam de mim.
Mas na minha.
Talvez tenha sido preciso perder os movimentos para descobrir que a vida nunca esteve na velocidade.
Estava no movimento.
Por menor que fosse, ainda era movimento.
Nenhum comentário até o momento.