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20/08/2026 03:06 | Articulistas

Livros são nossos amigos

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Eu era uma criança muito comportada, como se vê na fotografia. Invejosos dirão que é mentira.

Sentadinha, obediente, sorriso contido, cumpridora das regras, com aquela carinha de quem jamais daria qualquer trabalho à sociedade. Tenho provas.

Uma delas é uma fotografia do meu aniversário de sete anos, comemorado na escola que eu amava.

Nela, estou sentada num banco entre três pessoas que fizeram parte da minha infância: tia Dora, Tizabel e Cassinha, minha prima-irmã.

Na fotografia, só eu continuo viva. Well, nem tanto. A vida tentou me “desviver” algumas vezes, mas falhou.

Incompetente.

Mas esta não é uma história triste.

Porque basta olhar para Tizabel no meio daquela foto para eu conseguir ouvi-la:

— LIVROS SÃO NOSSOS AMIIIIIIIIIGOS!

(Ai, que saudade desses decibéis estourando meus tímpanos!)

Tia Izabel era minha professora de alfabetização no Curso Domingos Sávio. Mas não sei dizer em que momento Izabel deixou de existir e virou simplesmente Tizabel.

E Tizabel não dizia que livros eram nossos amigos.

Ela proclamava.

AMIIIIIIIIIGOS!

Com uma quantidade de “is” suficiente para não deixar margem a qualquer dúvida sobre a seriedade daquela relação.

Eu, aparentemente, levei aquela colocação a sério demais.

Aprendi que livro não se maltrata. Não se dobra página. Nem se faz “orelha”. Não se abandona aberto, de qualquer jeito. Não se coloca em locais de alta periculosidade, como perto de pias e áreas molhadas.

Durante muitos anos, escrever em livro me pareceu uma espécie de vandalismo intelectual. Eu usava post-it quando queria anotar. Começar a grifar exigiu de mim quase uma autorização judicial interna. A primeira vez que grifei um livro já foi na fase adulta.

Emprestar, então, nem se fala.

(NÃO ME PEÇAM LIVROS EMPRESTADOS. Sério. É motivo para terminar uma amizade.)

Há um certo trauma.

Durante a alfabetização, Tizabel fez a gente ler praticamente todos os clássicos infantis. E fazer resumo. Mas o que grifou meu coração com marcador verde-limão foi a obra completa de Monteiro Lobato.

Eram oito volumes de capa dura.

Eu ainda lembro da capa. Lembro das lombadas enfileiradas. Lembro do cheiro — cheiro livros até hoje, é um vício. Recomendo. Lembro deles como se ainda estivessem em alguma estante da casa da minha infância, lá em Bom Jesus.

Não estão.

Minha mãe emprestou a coleção.

Os livros nunca voltaram.

Calma, dona Regina. Eu já te perdoei. 😂

Não vou me alongar nesse episódio porque esta é uma crônica sobre Tizabel, não um boletim de ocorrência.

Deveria ter feito na época.

Mas talvez isso explique por que, mais de quarenta anos depois, meu acervo doméstico opere sob uma política bastante simples:

Livro meu não se empresta. Nem pro Papa. (Sorry, Leo.)

Não sai.

Não passeia.

Não conhece outras casas.

Quer ler? Eu digo onde vende. Mando o link. Indico um sebo. Com frete grátis! Se eu gostar muito de você, até dou um de presente.

MAS O MEU NÃO.

É lei.

Tizabel havia me ensinado que livros eram nossos amigos.

A vida acrescentou que talvez fosse prudente não deixar meus amigos saírem por aí com qualquer um.

Com o tempo, a situação se agravou.

Passei a conversar com livros. A discutir com os autores. A comprar alguns em mais de um formato. A ter livro de cabeceira, livro de bolsa, livro para determinadas fases da vida e livro que fica esperando pacientemente até que eu esteja pronta para ele.

Porque tem livro que lê a gente, e não o contrário.

Meu Kindle ganhou nome: JoaKindle.

Depois explico.

Clarice Lispector recentemente foi comigo à Unimed. Também me acompanhou numa eletroneuromiografia. Porque, como descobri depois de adulta, a hora da estrela é toda hora — inclusive na sala de espera.

Talvez Tizabel devesse ter sido um pouco mais específica sobre os limites dessa amizade.

Mas ela estava certa.

Muito antes de eu saber o que a vida faria comigo, aprendi que sempre poderia encontrar companhia dentro de algumas páginas.

Até meu celular já foi parar numa UTI escondido dentro de um livro, na época da Covid.

Long story.

No Curso Domingos Sávio, os livros não eram apenas instrumentos para aprender a juntar letras, formar sílabas ou responder perguntas.

Eles eram histórias inteiras colocadas nas nossas mãos.

Eu já amava ler.

Tizabel ajudou a transformar esse amor em pertencimento.

E talvez uma criança não consiga entender o tamanho disso quando acontece.

Na fotografia dos meus sete anos, eu certamente não entendia.

Eu não sabia quantas histórias ainda viveria.

Não sabia quantas vezes precisaria dos livros para atravessá-las.

Não sabia que haveria momentos em que meu corpo me impediria de ir a muitos lugares, mas uma página ainda conseguiria me levar aonde eu quisesse.

Não sabia que encontraria pessoas que morreram séculos antes de eu nascer e que, mesmo assim, teriam alguma coisa para me dizer.

Não sabia que alguns livros me fariam rir, outros me irritariam profundamente e alguns teriam a capacidade quase indecente de me encontrar exatamente onde eu estava.

Muito menos sabia que, depois de passar tantos anos entrando nas histórias dos outros, um dia eu escreveria a minha.

Daqui a poucos dias, aquela menina da fotografia vai à sua primeira Bienal do Livro de São Paulo como escritora.

Com credencial.

Escrevo essa frase e ainda preciso lê-la outra vez.

Como escritora.

Calmaê. Caiu um olho na minha lágrima.

Olho novamente para a fotografia.

Tia Dora.

Eu.

Tizabel.

Cassinha.

Quatro pessoas sentadas num banco num aniversário de sete anos. Comendo salgadinhos com os pés na areia.

Um instante absolutamente comum, desses que ninguém reconhece como importante enquanto está acontecendo.

Talvez seja isso que mais me comova nas fotografias antigas.

Elas sabem coisas que nós ainda não sabemos.

A menina daquela foto não fazia ideia de onde a vida a levaria. Tizabel também não poderia imaginar o destino daquela aluna que aparentemente prestava atenção demais quando ela falava de livros.

E obedecia.

Talvez algumas sementes sejam plantadas assim.

Sem cerimônia.

Uma professora entra numa sala de alfabetização.

Coloca livros nas mãos de uma menina.

Ela os abre. Cheira as páginas. Descobre que histórias também têm cheiro.

A professora repete uma frase tantas vezes que, mais de quatro décadas depois, sua voz ainda existe na memória daquela menina:

— LIVROS SÃO NOSSOS AMIIIIIIIIIGOS!

A professora fala.

A menina acredita.

Até hoje.

Os anos passam.

Os livros ficam.

Alguns, infelizmente, não — e sobre esses ainda teremos uma conversa.

Mas as histórias ficam.

Daqui a alguns dias, quando eu entrar na Bienal, talvez leve comigo aquela menina da fotografia.

Pensando bem, tenho certeza de que ela vai.

E Tizabel também.

Porque ela estava certa desde o começo.

Livros são nossos amigos.

Ela só esqueceu de me avisar que, um dia, eu escreveria um deles.

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💬 Comentários


Maria de Lourdes de Rezende Borges em 25/08/2026 14:38

Não foi sem emoção que li seu lindo e bem escrito texto sobre a importância que Izabel teve na descoberta do livro em sua vida. Parabéns pela conquista, prosperidade e sucesso!

Betinho em 25/08/2026 12:21

Obrigado pela linda homenagem que voce prestou a nossa tia bela,parabéns eu lembro muito daquela linda garoinha,um beijo do tio betinho

Marisa Borges, irmã das queridas Isabel Cristina e Dora Eliza em 24/08/2026 22:22

Seu texto salvou minha noite e iluminou minh’Alma. Obrigada pela linda recordação . Parabéns pela sua conquista e sucesso com seu livro . As meninas hão de estar orgulhosas de você. Abraços ternos !

Cecília em 24/08/2026 22:03

Obrigada pela linda homenagem a minha mãe

Regina Borges. em 20/08/2026 21:29

Linda mensagem.
Vc junta das pessoas q te amaram muito!
E hoje , já no céu sentem q fizeram parte do seu crescimento intelectual !