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30/08/2026 21:18 | Articulistas

Um conto sobre um trauma

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A maior parte da minha vida até hoje foi morando em casa com quintal, mas tive algumas experiências em alguns poucos condomínios de apartamentos, e uma delas, foi para mim, um dos piores momentos da minha vida. Para vocês que moram ou já moraram em condomínio… Como foi ou é para vocês?

Sabe quando você pensa começar uma nova e bela etapa da sua vida com a compra de um apartamento onde deveria ser o lar seu e de sua família, mas onde desde os primeiros dias vocês percebem que algo parece estranho, uma sensação de não ser bem-vindo… Mas tudo era novo e então pensamos ser apenas questão de tempo para esse sentimento estranho ir embora.

Assim começou minha experiência em um condomínio onde moramos. Lugar esse que não passamos nem um ano inteiro, pois foi devastador demais para mim tudo o que aconteceu. Desde o início, quando a noite descíamos para passear com a nossa cachorra da raça americanbully, que sempre estava na guia, percebíamos olhares dos quais não entendíamos muito bem, parecia que estávamos sendo reprovados por algo, mas aquelas pessoas nem mesmo nos conheciam, então era confuso.

Porém o universo enviava sinais desde o início, mas não entendíamos, afinal não deveria ser normal você comprar um apartamento e o condomínio não conseguir te informar nem ao menos onde ficava a sua vaga de carro, assim como também não deve ser comum o responsável pela organização e manutenção quase nunca estar presente para resolver os problemas dos condôminos… Um condomínio onde cães de pequeno porte ficavam soltos ou mesmo sendo levados para passear por crianças; um dia meu esposo passeando com nossa cadela na guia foi surpreendido por cão pequeno solto que veio correndo na sua direção e começou a cheirar nossa cachorra que ficou parada sem entender aquele cachorro que do nada veio até ela. Mas aquele cão também não estava solto, porém ele se soltou da guia e a criança que estava com ele se assustou e começou a chorar quando o cãozinho dela se soltou e foi correndo em direção a nossa. Faço aqui uma pergunta: Se a nossa americanbully tivesse se assustado e mordido aquele cachorro, de quem seria a culpa? Seria da nossa cachorra que estava na guia ou do cachorro que estava sob responsabilidade de uma criança e que não conseguiu manter preso o seu cachorrinho? Aparentemente a nossa cachorra já era vista como culpada dentro daquele local.

Um dia, quando decidi descer sem meu esposo para passear com nossa cachorra, me senti atacada por uma moradora de outro bloco, pois para ela a minha cachorra, que em nenhum momento latiu para ela ou para seu cachorro, tinha obrigação de usar focinheira e isso me foi dito de forma ríspida, enquanto a mesma se afastava e seu cachorro porte pequeno latia para mim e minha cachorra. Percebi ali que a situação poderia sair de controle, voltei para o apartamento, pois entrei em crise e não consegui terminar o passeio. A fim de evitar qualquer outra situação similar e também pensando na segurança de um modo geral, entramos em contato com um adestrador.

Mas a decisão coletiva já havia sido tomada por quem jamais ousou conversar.

Quando estávamos no período de compra do imóvel, perguntamos sobre ter animais e nos informaram que o local aceitava animais sem problemas, o na época síndico, conheceu nossa cachorra, elogiou-a e mais nada. Penso que se alguma obrigatoriedade tivesse, teríamos sido avisados ali, mas fomos ingênuos em acreditar em um lugar que não conseguia nos informar corretamente nem qual era a nossa vaga de estacionamento.

Uma noite então, estávamos nós passeando com nossa cachorra, fazendo os exercícios de casa que o adestrador havia nos passado, quando uma senhora muito simpática nos parou para perguntar se a nossa cachorra era uma americanbully e dissemos que sim e ela prontamente completou em seguida: - Eu sabia que era americanbully. Porque estão dizendo no condomínio que tem um casal com pitbull e eu disse que não era.”.

Ali nós entendemos que apesar de não conhecermos ainda ninguém naquele local, nós já estávamos mais que conhecidos. E além daquela senhora, mais ninguém veio tentar conversar ou tirar qualquer dúvida. Nos sentimos julgados, viramos a fofoca daquele lugar. E na noite seguinte passaríamos pela situação mais constrangedora de todas.

Na noite do dia seguinte, o adestrador chegou e todos descemos para fazer os exercícios com nossa cachorra e de repente, aquela mesma pessoa que semanas atrás fora ríspida comigo, achou normal começar a gritar na frente do seu bloco que a nossa cachorra era ass@ssina, violent@ etc. Meu esposo foi tentar conversar, mas ela continuava a gritar coisas horríveis, então eu e o adestrador nos aproximamos e ele enquanto profissional foi tentar explicar que ela estava sendo adestrada para ser meu cão de suporte, pois nada adiantava, a gritaria continuava; o esposo dela chegou e tentou ele mesmo acalmá-la para que pudéssemos conversar, também sem sucesso.

Toda aquela situação, me levou a uma crise de sobrecarga e eu me lembro de agachar e colocar as mãos na cabeça e ouvir meu esposo pedindo para que ela se acalmasse pois eu sou autista e estava em crise. Ouvi que como poderia passear com minha cachorra assim, que se tenho problema deveria ficar em casa. Não há aqui, de forma alguma, nenhum julgamento, pois ficou de certa forma nítido que aquela pessoa tinha seus traumas, porém, precisamos entender que há condições de você se sentir no direito de ofender, desrespeitar ou mesmo humilhar o outro. Diante disso e da falta de apoio verdadeiro do local que deveria ser um lar, não foi possível para mim continuar lá. Hoje, sequer consigo passar em frente.

Poderia descrever aqui em detalhes tudo que senti, como tudo que vivemos ali me fez mal, me adoeceu ainda mais, mas hoje, apenas queremos conseguir viver em paz, conseguir deixar todos aqueles sentimentos para trás, porém também oramos e torcemos para que a justiça seja feita, pois não queremos que mais ninguém passe por aquilo, que nenhuma pessoa se sinta humilhada ou desrespeitada, que todos entendam que o grito e o preconceito não podem ser usados para coação ou mesmo para garantia de algum direito. A justiça existe e confiamos nela.

Que a nossa história sirva para aprendizado de todos os envolvidos, para o crescimento pessoal e coletivo.

* Não somos contra ao uso de focinheira quando recomendado e obrigatório, mas precisamos lembrar que todos os donos de pets precisam ter responsabilidade e não julgar o outro e menos ainda os animais.

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