Minha mesa está um caos.
Há pedaços de papel, uma tesoura, pequenos livros em diferentes estágios de existência e caixas de remédio recortadas por toda parte.
Algumas já perderam o nome. Outras ainda carregam pedaços da bula, uma faixa azul, uma palavra pela metade.
Estou usando caixas de medicamentos para fazer pequenos livros.
Não foi uma escolha poética.
Foi uma escolha econômica.
Eu precisava de um papel mais firme para estruturar as capas, tinha caixas vazias em casa e, aparentemente, desenvolvi uma incapacidade grave de olhar para qualquer pedaço de papelão sem pensar:
— Dá pra fazer alguma coisa com isso.
Só depois percebi a ironia.
Passei anos abrindo caixas como aquelas procurando dentro delas alguma coisa que fizesse meu corpo doer menos.
Hoje eu as abro com uma tesoura.
Corto as laterais.
Descarto as abas.
Meço.
Dobro.
Encapo.
E faço livros.
Seria bonito dizer que transformei a dor em arte.
Mas não transformei.
A dor continua aqui.
Neste exato momento, inclusive.
Ela não passa nem com morfina. Às vezes diminui o suficiente para abrir uma pequena janela, e eu enfio nela aquilo que minhas colheres permitem fazer antes que a conta chegue.
Também continuo tomando remédios.
Continuo precisando das caixas antes de poder cortá-las.
E talvez essa seja a parte mais importante da história.
Porque ressignificar não é olhar para aquilo que nos feriu e, depois de encontrar uma metáfora bonita, decidir que valeu a pena.
Algumas coisas não valeram.
Algumas eu teria preferido não viver.
Algumas eu ainda preferiria não precisar viver todos os dias.
Não há gratidão obrigatória no sofrimento.
Mas existe uma diferença entre dizer que alguma coisa foi boa e decidir que ela terá a palavra final.
Talvez seja isso que eu esteja fazendo nesta cama, cercada por papel picado e pequenas capas improvisadas.
Não estou apagando o nome do remédio.
Estou cobrindo.
Não estou negando para que serviu aquela caixa.
Estou dando a ela outra serventia depois.
E há alguma coisa estranhamente familiar nisso.
Porque meu corpo também não voltou a ser o corpo de antes.
Ele carrega marcas.
Limitações.
Remédios.
Dor.
Dias em que uma tarefa banal custa uma quantidade obscena de energia.
Eu não fui restaurada à configuração de fábrica.
Ainda bem, porque desconfio seriamente de que este modelo já saiu de fábrica com alguns parafusos a menos e defeito no colágeno.
Sem recall.
Sem reposição de peças.
Sem pavio.
E sem freio na ladeira em dia de chuva.
Mas continuo aqui.
E talvez eu tenha aprendido a fazer comigo algo parecido com o que faço agora com essas caixas:
não jogar fora aquilo que ainda pode sustentar alguma coisa.
Uma caixa que carregou remédio agora sustenta páginas.
Um corpo que carregou tubos, cânulas, agulhas, cicatrizes e uma quantidade indecente de medicação hoje carrega livros.
As caixas não escolheram o que carregariam primeiro.
Eu também não.
Horas depois, olho novamente para a mesa.
O caos diminuiu.
As caixas recortadas foram empilhadas num canto. A tesoura ainda está ali. E pequenos livros, presos por grampos, agora descansam enfileirados à minha frente.
A matéria é a mesma.
O que ela sustenta é que mudou.
Amanhã vou continuar.
Vou encapar, colar, montar. Alguns desses pequenos livros seguirão viagem junto com um livro maior chamado Refém de mim.
Talvez quem receba um deles nunca saiba o que existe debaixo daquela capa.
Eu saberei.
Debaixo do papel bonito ainda haverá uma antiga caixa de remédio.
E gosto que haja.
Não quero apagá-la.
Porque ressignificar nunca foi apagar a história.
Foi descobrir que ela ainda podia sustentar outras páginas.
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