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17/09/2026 01:56 | Articulistas

Antes do mar

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A tartaruga nasce sem saber que o mar existe.

Ninguém se abaixa ao lado dela para explicar que aquela imensidão à frente será casa. Ninguém lhe entrega um mapa, garante que o caminho é seguro ou avisa quanto falta.

Ela simplesmente nasce.

E vai.

Talvez seja essa uma das primeiras crueldades e uma das primeiras belezas da vida: ela começa antes que a gente esteja pronto para vivê-la.

A gente também nasce assim.

Depois, passa anos fingindo que não.

Criamos agendas, fazemos planos, escolhemos profissões, casamos, temos filhos, marcamos consultas para terça-feira às três da tarde e compramos passagens para setembro como se agosto já estivesse garantido. Colocamos compromissos no calendário com meses de antecedência como se tivéssemos recebido alguma garantia secreta de que estaremos lá.

Ha ha ha, inocentes!

Não recebemos.

Ainda assim, marcamos. Insistimos.

Talvez viver dependa um pouco dessa insolência.

Eu já tive muitos mapas arrancados das mãos.

Alguns se perderam. Outros, levados pelo vento.

Houve momentos em que eu sabia exatamente onde queria chegar e, de repente, já não reconhecia nem o corpo que deveria me levar até lá. Muito menos o caminho.

Houve dias em que o horizonte inteiro coube entre uma cama e uma porta. Dias em que chegar ao banheiro pareceu uma travessia oceânica. Dias em que respirar deixou de ser automático e permanecer deixou de ser verbo bonito.

Virou trabalho.

Por muito tempo, achei que permanecer significasse ficar.

Aguentar.

Suportar.

Não morrer. Só não morrer.

Talvez porque, em determinados momentos, permanecer tenha sido exatamente isso. Houve épocas em que continuar respirando já era uma forma suficientemente grande de existência. Não havia necessidade de metáfora. Nem de lição. Nem daquela mania insuportável que temos de encontrar propósito em toda dor.

Algumas coisas doem porque doem.

E só.

Mas sobreviver produz uma pergunta que quase ninguém faz enquanto estamos ocupados tentando sobreviver:

e depois?

O que fazemos quando o perigo passa, mas nós não somos mais aqueles que entraram nele?

Não sei.

Tenho desconfiado de quem sabe.

Aos 48 do 2º tempo, continuo chegando a lugares para os quais não recebi mapa. Continuo começando coisas tarde, cedo, na hora errada e na hora possível.

Escrevo livros quando talvez devesse descansar. Faço planos sabendo, mais do que gostaria, o quanto planos são frágeis. Apaixono-me por projetos, pessoas, bichos e futuros que não posso garantir.

E marco compromissos para terça-feira às três.

Ainda.

Talvez essa seja minha forma particular de insolência.

Hoje, eu precisava escrever uma crônica.

Era uma da manhã e eu não tinha assunto.

Peguei o celular.

01:01.

Na tela, meu papel de parede: uma tartaruguinha recém-nascida caminhando pela areia em direção ao mar.

Fiquei olhando para ela.

Tão pequena. Ainda com o casco mole.

O oceano nem aparece na fotografia.

Só existe areia.

E isso me incomodou mais do que se o mar estivesse ali.

Porque ela caminha em direção a alguma coisa que ainda não pode ver.

Foi então que percebi que talvez eu tenha entendido errado uma palavra que venho carregando comigo há algum tempo.

Permanecer.

Eu a tratava como resistência.

Ledo engano, caro leitor.

Hoje penso que permanecer também pode ser movimento.

Não necessariamente um movimento grandioso. Às vezes não há corrida, conquista, pódio, chegada triunfal ou música subindo ao fundo.

Às vezes há só uma criatura minúscula e vulnerável avançando alguns centímetros sobre a areia.

Talvez amanhã ela chegue ao mar.

Talvez se perca no caminho.

Talvez não.

Essa é a parte que eu gostaria de apagar da metáfora, mas não vou.

Porque transformar a tartaruga numa promessa de final feliz destruiria justamente aquilo que ela veio me lembrar à uma da manhã:

não existe promessa.

Existe caminho.

E existe o próximo movimento.

Savasana.

Passei muito tempo achando que permanecer era ficar.

Talvez eu estivesse errada.

Às vezes, permanecer é continuar andando em direção a um mar que a gente ainda nem consegue ver.

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