03/01/2026 00:54 | Colunistas
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por Aline Borges

O Sagrado Ofício de Construir Pontes

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“Se Deus me escolheu para ajudar outros através da minha dor, assim eu o farei!”. Essa frase não nasceu de um momento de iluminação fácil. Ela germinou em noites em claro, sob o peso de perguntas que rasgam a alma: “Por que eu? Por que logo comigo?”. No início, o fardo parecia apenas um erro de destino, um caminho injustamente mais pedregoso do que o dos outros.
No entanto, descobri que esses questionamentos não eram falta de fé; eram parte dela. Deus não teme nossos “porquês”; Ele espera por eles. Foi no turbilhão dessas dúvidas que aprendi a enxergar com a luz do propósito. O que antes era revolta, tornou-se reverência.

Percebi que a dor, quando aceita como parte da nossa história — não como identidade, mas como território —, torna-se a linguagem mais profunda da empatia. Deixei de perguntar “por que eu?” para entender o “para que, através de mim?”. Essa pequena mudança de preposição mudou tudo. Tornei-me tradutora de sofrimentos alheios porque passei a dominar o alfabeto da limitação e a gramática da resistência.

Cada noite de angústia tornou-se um capítulo de um manual de sobrevivência que agora posso emprestar a quem atravessa a mesma escuridão. A dor, sozinha, é uma cela; compartilhada, torna-se chave. Escrever tornou-se meu modo de estender a mão no escuro.

Hoje, não vejo minha condição como uma sentença, mas como o material bruto para construir algo maior que eu. A maior santidade não está em evitar o sofrimento, mas em consagrá-lo. Não é fugir da cruz, mas usá-la para talhar a ponte. Sigo fazendo: um texto, um acolhimento, uma ponte de cada vez. Porque a dor que não é transformada em amor é apenas sofrimento que se repete. Eu escolhi que a minha fosse semente.

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💬 Comentários


Monica Conte em 08/01/2026 14:45

Amei.
Parabens Aline pelo texto.