28/01/2026 14:48 | Colunistas
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por Aline Borges

A vida é um Lego e eu tô descalça

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Há dias em que a vida decide nos lembrar, de uma forma nada sutil, que somos uma construção inacabada. Uma obra projetada, porém com manual perdido e peças que parecem ter vindo de caixas diferentes.

Outro dia, pensei numa metáfora: “A vida é um Lego e eu tô descalça!”. Ri sozinha. Soou como piada de terceira categoria, “conta de mentiroso” pra disfarçar o absurdo. Até que meu corpo resolveu dar um exemplo prático e escultural.

Expeli sete cálculos renais. Sete. De uma só vez e, caso não acredite, querido leitor, eu tenho fotos para provar – inclusive para mim mesma, que fiquei incrédula diante daquele espetáculo renal.

Sete não foi número da sorte. Foi uma epopeia renal. Uma saga interna de “tijolinhos” que meu corpo, num surto de criatividade duvidosa, resolveu esculpir e depois expulsar, com uma insistência quase artística. Era como se ele sussurrasse, entre ondas de dor cortante: “Olha que complexa eu sou! Olha que detalhista! Capaz de fabricar miniatura do inferno em formato de pedrinha!” Ao menos se fosse uma pedra preciosa… 🙄

Enquanto isso, a mente tentava manter o ritmo. A metáfora do Lego voltou, mas agora sem graça. Porque a dor aguda tem esse poder: ela esvazia o humor e enche tudo com seu grito monocromático. Pisar descalça num tijolo de plástico é um susto dolorido. Sim, eu tenho 3 filhos e já pisei em vários Legos, conheço bem essa dor. “Passar” uma coleção de pedras microscópicas e pontiagudas por um ureter estreito é uma aula de anatomia, humildade e puro pavor.

Pensei na água. Bebo litros e litros, religiosamente, desde que me entendo por gente. Carrego a minha “caixa d’água” de 1 litro para todo lado. E ainda assim, o corpo fabrica “tijolos” na amarga esperança de construir seu castelo de crueldade. É uma traição íntima. Uma ironia fisiológica. “Imagina se não bebesse esse tanto de água?”, me perguntei, enquanto segurava o copo cheio com uma ponta de raiva. Talvez estivesse montando um castelo inteiro lá dentro.

E é aí que a metáfora resiste, teimosa: a vida é mesmo um Lego para quem tem uma condição crônica. Você passa os dias tentando montar uma estrutura estável, bonita, funcional — sua rotina, seus cuidados, seus pequenos prazeres. Usa as peças que tem: paciência, remédios, adaptações, uma colher de resiliência, exercícios de respiração.

Mas sempre, sempre, há peças soltas e afiadas no chão que você não viu. Queria não ser míope! Uma crise nova. Um sintoma inesperado. Uma sequela da vida de quem fez 2 cirurgias abertas nos rins e 3 a laser para explodir os tijolos de vários castelos construídos ao longo de 4 décadas. E você, descalça, míope, pisa. E pula. E amaldiçoa em silêncio. Pede perdão à vida por gostar de sentir a energia telúrica ao andar descalça. E depois se abaixa, com cuidado, para ver o que era. E segue montando. Colecionando.

Não foi um dia de spa. Foi um dia de guerra interna. Mas no final, exausta e com um alívio que mais parecia um trauma, fiz o que sempre faço: busquei conforto. Banho, oração e um jantar para mim e para os meus. Um macarrão com cheddar que não metaforiza nada, só aconchega. O prato que diz “isso aqui é real, é quente, é bom e vai te sustentar”. Estava em busca do equilíbrio, da estabilidade inexistente na jornada dos crônicos.

Porque às vezes, depois de expelir pedras, você precisa lembrar ao corpo que ainda sabe abrigar coisas reconfortantes e prazerosas. Que a vida não é só sobre os tijolos afiados e rins machucados, mas também sobre o que a gente constrói e consome nos intervalos da dor que ainda não passou. E talvez nem passe.

A conclusão? Continuo descalça. Continuo montando. E meu corpo, complexo e arteiro de “artista que faz arte”, insiste em me fornecer o material mais bizarro para a obra. Tudo o que posso fazer é tentar não pisar em tudo — e, quando pisar, transformar os tijolos em história, o Lego em lembranças.

Porque no fim, o manual nunca esteve perdido. Estávamos nós, o tempo todo, o escrevendo a cada tropeço, a cada dor, a cada suspiro de alívio e a cada grito por socorro, inaudível, submersos em litros de lágrimas dolorosas.

Sim, a vida é um Lego. Calce seus sapatos.

👞

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💬 Comentários


Adahirzinha Moll em 29/01/2026 19:22

Lendo você levei um soco nos rins… rebobinei minhas jornadas e quase expeli o resto de pedras que me restam… calcei umas lindas sandálias nude e saí por aí pisando nos meus legos. Obrigada!

Andressa Fonseca em 29/01/2026 17:43

Perfeita demais, você arrasa amiga!

Patrícia em 29/01/2026 13:47

Perfeita reflexão