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05/02/2026 12:38 | Colunistas
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por Aline Borges

O peso do silêncio

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Há um silêncio que pesa.

Não é o silêncio do quarto escuro; é o silêncio do corpo que desligou.

A dormência nas pernas não é alívio — é uma ausência com massa, com volume.

Da altura dos joelhos para baixo, eu desapareci, mas deixei para trás o molde de mim mesma, feito de chumbo.

Aprendi, com o tempo, a ouvir a dormência.

Ela não é vazia.

Tem textura de algodão úmido, temperatura de madrugada sem lua, um ruído de estática espessa.

O Guillain-Barré me deixou isso: a capacidade de escutar o que o corpo não diz.

Enquanto a dor aguda grita, a dormência sussurra:

“Aqui, algo se foi.

Aqui, o mapa das sensações tem um continente em branco.”

E enquanto as pernas se mantêm como colunas de gelo imóvel, outra parte do corpo arde em fogo.

É a orquestra desafinada do crônico:

uma seção protesta em volume máximo,

a outra entra em greve de silêncio absoluto.

Uma exige atenção.

A outra foge do toque.

E eu, no meio, tento reger esse caos com a única batuta que me restou: a atenção.

Então escrevo.

Escrevo como quem tenta traduzir o silêncio.

Como quem busca uma língua para o vácuo.

Se o nervo já não conduz o toque, eu conduzo a caneta.

Se o pé não sente o chão, planto palavras onde deveria haver sensação.

A página vira meu eletroencefalograma literário:

cada linha, uma tentativa de mapear territórios perdidos do corpo.

Aprendi que a dormência não precisa ser um deserto.

Pode ser um campo em pouso.

Onde o corpo descansa da dor, a imaginação cria raízes.

O silêncio pesa, sim.

Mas hoje, em vez de carregá-lo como maldição, carrego-o como matéria-prima.

Porque dessa quietude forçada nasceu uma escuta refinada.

Desse corpo que às vezes silencia, nasce uma voz que não se cala.

A dormência tem o peso do silêncio.

A palavra tem a leveza de uma asa.

E eu, entre uma e outra, sigo escrevendo,

transformando chumbo em verso,

ausência em presença.

O silêncio pesa.

O chumbo mantém meus pés no chão.

E, ao traduzir a dor em palavras,

percebo:

a vida não foi em vão.

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