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21/02/2026 15:08 | Colunistas
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por Bia Siqueira

A incrível arte de sobreviver (pode conter gatilhos)

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O que é banal para a maioria das pessoas, para mim, pode tornar-se um verdadeiro desafio. De um “simples” mal-estar à uma crise completa. Coisas simples do dia a dia como uma tarefa básica da casa ou uma ida à academia, podem fazer meu corpo e mente “pifar” por horas ou até mesmo dias.
E então, não à toa, que em uma noite dessas, eu tenha implorado por ajuda...Desabando em lágrimas. Chorei angustiada pela dor que é viver; pois quando não nascemos dentro dos padrões ou “moldes” esperados, tudo pesa mais, tudo fica ainda mais difícil.
Perguntava o porquê dessa dor, ao mesmo tempo em que clamava por ajuda. Tentava entender toda uma vida de falhas e tentativas...Principalmente para tentar parecer igual, para encaixar-me. E pedia perdão por possíveis pensamentos...
Família, amigos, Fé, apoio e tratamentos dentro do possível, mas nem isso torna mais fácil a arte de sobreviver, que é muitas vezes, uma tarefa de sentimentos solitários, de muita força e garra. Cansa...
Viver de forma onde um singelo barulho incomoda, dói, machuca e é quase sufocante, assim como qualquer quebra de rotina, como o ato de socializar, muitas vezes naquela obrigação de ser simpático mesmo quando seu corpo e mente estão completamente exaustos, é pesado demais...São quilos e mais quilos de um peso que precisamos carregar todos os dias, em quase todos os momentos, pois são poucas as pessoas e os lugares onde podemos ser totalmente nós mesmos. E tudo isso drena qualquer energia existente. O corpo desaba!
De repente descobrir que muitas coisas das quais você sentiu a vida toda e achava que era normal, não é, faz seu mundo virar um pouco de cabeça para baixo. Como assim não é normal ter síncopes de desmaio? Como assim não é normal gostar de todas as coisas no mesmo lugar sempre? Como assim não é normal sentir um cansaço extremo quase que o tempo todo fingindo estar bem?
Foram quase quarenta anos vivendo com uma série de sintomas sem saber que eram sintomas. Tudo era normal e todo mundo sentia também, então eu teria que conviver com eles, com tudo que sentia, pois se as outras pessoas conseguiam, eu também deveria. Acontece que eu colapsei.
Foi só aí que realmente consegui entender que algo não estava certo, e fui parar em outro estado atrás de especialistas que pudessem me ajudar e descobrir o que realmente acontecia comigo. Não poderia ser tudo culpa da ansiedade, ou eu deveria estar numa camisa de forças...Eram sintomas demais, e muita gente não soube me dizer ou me ajudar.
Muitos exames, consultas, viagens para consultas, muito dinheiro que não tínhamos, mas também muita garra e vontade de continuar viva. Vieram enfim os diagnósticos de algumas deficiências invisíveis, como o transtorno do espectro autista e o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, além de síndromes ligadas à hipermobilidade articular e suas comorbidades.
Hoje, tento entender ainda tudo isso, assim como respeitar meus limites e entender o que pode me gerar crises ou não; porém, ainda hoje, tendo a viver como no passado, como se nada eu tivesse ou sentisse. A vida parece mais fácil quando finjo ser o que não sinto, mas a verdade, é que isso também dói.
Viver nunca foi fácil, nunca foi para ninguém, mas sobreviver é ter a coragem para enfrentar as dificuldades da vida e a vontade de desistir várias vezes...E nesse mundo, eu sigo aprendo todos os dias como é lindo viver, como é fantástico sobreviver para ver e sentir tudo que a vida há de nos oferecer...
Esse é um pequeno relato, de uma pessoa com deficiências invisíveis, que ainda hoje sonha em poder realizar atividades banais, sem medo do que poderá vir depois.

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