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05/03/2026 10:10 | Colunistas
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por Aline Borges

O amor que eu escondo no pão

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Amanhã é sexta.
Dia de quimioterapia do Zidane.

Eu já conheço o roteiro:
o veneno que salva,
o xixi que queima a grama,
os vômitos,
a indisposição,
aquele olhar quieto pedindo colo.

Lá fora, quase 40 graus. Nem pensar em colocá-lo no carro.

E eu vou ter que sair.

Levar meus meninos para escola, terapia, inglês, futebol, basquete, redação.

Vou ser a mãetorista de sempre.

Ele vai ficar.

Não vou mentir: meu coração vai ficar também.

Dividido entre o banco de trás, onde meus filhos conversam,
e a sala vazia, onde um cachorro-filho passa mal sem mim.

Essa é a guerra que ninguém vê.

Meu cérebro diz:
“Eles precisam de você. A rotina não para, o autismo não tira férias, o esporte e a redação também não.”

Meu corpo obedece.
Veste a roupa, pega a bolsa, liga o carro.

Mas meu coração fica.

Deitado no chão frio, ao lado do Zidane.

Ontem, passando pasta de amendoim num pedaço de pão para esconder o comprimido, eu entendi.

Amor não é estar junto o tempo todo.

É inventar jeitos de se fazer presente.

Porque onipresente…
só Deus.

É a pasta de amendoim que disfarça o gosto amargo do remédio.

É o ar-condicionado que deixo ligado, mesmo sabendo que a conta de luz vai doer.

É a água fresca trocada antes de sair, com a pedrinha de gelo que ele adora lamber.

É a volta para casa mais rápida do que qualquer GPS recomendaria.

Amor é essa gambiarra afetiva que a gente cria para cuidar de quem ama, mesmo de longe, sem tempo, com o coração em guerra.

Enquanto estiver no carro com os meninos, vou pensar nele.
Vou torcer para o mal-estar passar rápido.
E para o trânsito ajudar.

Vou contar os minutos até abrir a porta e ver aquela cara de “você demorou três séculos” que só os cachorros sabem fazer.

E quando eu chegar, vou passar mais pasta de amendoim no pão.

Porque amanhã será outro dia.

E porque o amor, no fim das contas, é isso:

fazer o que a gente pode,
com o que a gente tem,
do jeito que der.

E, ainda assim, ser o suficiente.

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💬 Comentários


Cíntia Acruche em 06/03/2026 07:52

Ahhh, Aline! Meu coração ficou miúdo agora! Meu filho Pet partiu há 11 dias! Uma saudade que não se explica. Cuidei dele assim como você descreveu! Foram 11 meses de muitas manobras para driblar os tais comprimidos amargos entre outras coisas. Mas valeu cada segundo. Queria que tivéssemos mais tempo… ❤️