Março é um mês que nos convida a olhar para a história, para as conquistas e também para as dores das mulheres. Como psicóloga, não consigo pensar no mês da mulher apenas como uma celebração, mas também como um convite à consciência, olhando com mais profundidade para as experiências femininas — inclusive aquelas que muitas vezes permanecem silenciadas: violência, culpa, vergonha e relações abusivas que se sustentam por anos.
Recentemente, a história contada no livro "Um hino à vida: a vergonha precisa mudar de lado", de Gisèle Pelicot, nos confronta com uma realidade dura: durante anos foi dopada e estuprada pelo próprio marido e por dezenas de homens, sem saber o que estava acontecendo. É impossível ouvir essa história sem se perguntar: como isso pôde acontecer por tanto tempo? Como ela não percebeu os sinais ao longo dos anos?
Sabemos que relações abusivas não começam com violência explícita. Elas muitas vezes se constroem sobre vínculos emocionais frágeis, carência afetiva, idealização de um relacionamento. Quando o projeto de vida de uma mulher se concentra apenas em manter um casamento ou preservar uma relação, sinais importantes podem ser ignorados. É importante buscar satisfação pessoal e amor em outras formas de relações e vivências.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, falamos muito sobre como pensamentos, crenças e necessidades emocionais influenciam nossas escolhas. Por isso, o mês da mulher também é um convite para fortalecer a autonomia, o senso crítico e o amor-próprio. Nenhuma mulher deveria carregar a vergonha da violência que sofreu. A vergonha precisa, definitivamente, mudar de lado.
Que cada vez mais as mulheres estejam atentas e fortes.
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